Diminuir a fonteAumentar a fonte 01/11/2006
Cap 03 - Compreendendo a delegação da autoridade
por Cezar Andrade Marques de Azevedo

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“Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas daqueles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram:

Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarreguemos deste serviço. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra.” (At 6:1-4)

A liderança constituída por Deus para o exercício de um dado ministério precisa compreender sua missão para que possa desempenhar seu papel (1). A missão é a razão de ser daquele ministério que, no caso do ministério diaconal, é o de se colocar a serviço de Deus em prol da igreja, atendendo suas necessidades cotidianas, complementando o ministério pastoral.

Para que esta missão possa ser mais bem compreendida, devemos buscar os objetivos a serem alcançados no exercício do diaconato. Os objetivos são, na verdade, as metas por meio dos quais é possível direcionar os esforços empreendidos (1). Observando atentamente as circunstâncias que estes sete homens foram separados pelos apóstolos para o exercício de seu ministério, podemos, conforme observou Robert Naylcr (2 – p 22-27), ressaltar quatro objetivos.

Os diáconos foram constituídos para “deixar desembaraçados os ministros” (2 – p 22). O ministério da palavra e da oração é o centro vital da igreja. É por meio deste ministério que Deus dá diretrizes, consolo e correção ao Seu povo. A palavra de Deus é a condição única por meio da qual nós podemos compreender os propósitos divinos e nos deixar moldar pela vontade de Deus. Hoje vemos pastores sobrecarregados fazendo coisas pelas quais eles nunca foram chamados. Encontramos pastores atuando como pedreiro e carpinteiro da igreja, edificando o templo; pastores cuidando das finanças da igreja, fazendo serviços de banco, pagando as contas da igreja e fechando relatórios de caixa; pastores cuidando da manutenção do templo e sua limpeza; pastores cuidando da preparação de boletins informativos; pastores cuidando de intermináveis visitas domiciliares; pastores cuidando de convocar membros para as reuniões. São tantas as atividades que podem ser depositadas sobre o pastor que a única coisa que não lhe resta tempo é para o ministério da palavra e da oração.

Um aspecto importante a observar é que o trabalho do diácono, visando desembaraçar os pastores, necessariamente é um trabalho complementar, baseado na confiança mutua, portanto um trabalho feito com o consentimento do pastor, sob sua supervisão e no seu conhecimento. Não podemos entender que os diáconos devem assumir a igreja deixando os pastores complemente alheios às suas atividades, porque este procedimento, com o passar do tempo, vai gerar um clima de desconfiança e desentendimento.

Quando o ministério pastoral constitui o ministério diaconal, está lhe delegando autoridade, tendo por objetivo a transferência de tarefas rotineiras e programáveis para a liberação do pastor para o exercício de suas atividades primordiais (3). Para que a delegação funcione a contento a tarefa deve ser delegada por completo à pessoa certa, concedendo-lhe autonomia para sua realização. O pastor deverá informar corretamente quais as tarefas estão sendo delegadas, quais os objetivos a serem alcançados no exercício daquela tarefa e como será a prestação de contas de tudo quanto foi realizado (4).

Um outro aspecto importante na delegação da tarefa é manter um canal aberto de comunicação entre o ministério pastoral e o diaconal. Nós devemos aprender este aspecto com o modo como Deus age em relação ao homem. No jardim do Éden Deus criou o homem e a mulher, proporcionou-lhes um jardim provido de toda árvore boa para se comer, deu-lhe um mandamento restringindo-lhes uma única árvore, a qual nenhum fruto poderia servir de alimento e incumbiu-os de lavrar e guardar o jardim (Gn 2:15).

A Bíblia diz que no final do dia Deus vinha ao encontro do homem, pois seu prazer era ter comunhão com o casal (Gn 3:8). Os pastores e os diáconos precisam manter um relacionamento franco e aberto entre eles, um suprindo as necessidades do outro, mantendo contato contínuo e informando sobre seus passos. Quanto mais estreito for este relacionamento, mais profunda será a interação entre eles. Abrir mão destes momentos é meio caminho andado para a dissensão entre os ministérios.

Foi o que aconteceu no Éden. Quando a serpente veio e fez a proposta a mulher e esta a seu esposo, o casal não fez questão alguma de consultar a Deus sobre como deveria proceder diante daquele estranho pedido. Os diáconos, à medida que interagem com a igreja podem usar de seu cargo para manipular consciência, para instigar as pessoas contra a autoridade do pastor, promover a divisão no seio da igreja, tudo porque passam a dar ouvidos a outro que não o pastor da igreja. Absalão, o filho de Davi, é um terrível exemplo deste tipo de atitude. Vamos examinar sua história:

“E levantando-se Absalão cedo, parava ao lado do caminho da porta; e quando algum homem tinha uma demanda para, vir ao rei a juízo, Absalão o chamava a si e lhe dizia:

De que cidade és tu?

E, dizendo ele:

De tal tribo de Israel é teu servo;

Absalão lhe dizia:

Olha, a tua causa é boa e reta, porém não há da parte do rei quem te ouça.

Dizia mais Absalão:

Ah, quem me dera ser constituído juiz na terra! para que viesse ter comigo todo homem que tivesse demanda ou questão, e eu lhe faria justiça.

Sucedia também que, quando alguém se chegava a ele para lhe fazer reverência, ele estendia a mão e, pegando nele o beijava. Assim fazia Absalão a todo o Israel que vinha ao rei para juízo; desse modo Absalão furtava o coração dos homens de Israel.” (II Sm 15:2-6)

O fim nos é conhecido. Depois de Absalão usar de seu lugar de confiança junto ao rei e furtar o coração dos homens a seu favor, deu um golpe de Estado, expulsou seu próprio pai, violentou todas as concubinas de Davi e se fez rei. No fim Absalão foi morto pelo general de Davi e o reino foi restituído ao rei Davi. Esta tem sido a história de muitas igrejas divididas por diáconos que se apropriam do lugar que Deus lhes colocou na igreja, que é corpo de Cristo, usando de sua posição para dividir a igreja, ocupando assim o lugar do pastor. Por esta razão muitos pastores evitam terminantemente constituir diáconos para lhe ajudar a dividir a carga ministerial.

Agora, quando a liderança diaconal é constituída com sabedoria, tendo sido escolhido homens fieis e sábios, conforme a orientação da palavra de Deus; quando as tarefas são delegadas com clareza, demonstrando claramente quais são os objetivos que precisam ser alcançados; quando existe um canal aberto de comunicação entre o pastor e seus diáconos, permitindo que o desempenho de suas atividades sejam devidamente avaliadas; quando os resultados alcançados atendem as expectativas de ambos os ministérios, então ambos os ministérios poderão se constituir numa benção para a igreja.

(1) Naylcr, Robert. O Diácono Batista. Casa Publicadora Batista. Rio de Janeiro, 1956
(2) www.nge.ct.ufsm.br – Certo, Samuel C. Peter, J. Paul. Administração estratégica: planejamento e implantação da estratégia.
(3) www.guiarh.com.br
(4) http://pt.wikipedia.org

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