Diminuir a fonteAumentar a fonte 12/06/2014
Solidão agravada pela tecnologia
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

“Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas...” (II Tm 3.1,2)

Grande parte dos cristãos concebe o relacionamento com Deus como decorrente da prática de certas disciplinas religiosas, tais como ir à igreja, participar de um culto, reunir-se nas casas, aplicar-se ao jejum e à oração, praticar boas obras, dar o dízimo de seus ganhos, dentre outras atividades. Qualquer que seja a atividade escolhida, elas têm algo em comum, se constituem em uma exteriorização de nossa personalidade. Explicando melhor, o ato de dirigir-se a algum lugar, fazer algum pronunciamento, abrir a boca para falar com Deus, proporcionar ajuda para algum necessitado, todas estas coisas partem do princípio que temos de externar o que há dentro de nós para sermos vistos, compreendidos e protagonistas dos eventos existenciais. Se nada disso acontecer, a sensação que temos é que estamos só conosco mesmo. Quando olhamos para dentro de nós, duas coisas se evidenciam: o fluxo incessante de nossos pensamentos e as manifestações orgânicas de nosso corpo. Resultado, temos a tendência de nos sentirmos solitários e desamparados.

Esta tendência de centrar a existência no ego tem sido reforçada pelas opções tecnológicas. Cada vez mais as pessoas estão adotando os relacionamentos virtuais como prática dominante na vida. É comum ver grupos inteiros de pessoas com proximidade física, cada um sentado em um canto mantendo conversas com amigos invisíveis aos olhos, muito deles, até mesmo, completamente desconhecidos no plano físico. Poucos atentam para um componente significativo nos relacionamentos virtuais. Digamos que certo indivíduo esteja conversando por meio de um chat na internet. Neste caso temos duas pessoas reais, contudo conectadas virtualmente. O problema está que a conversa entre elas é feita por meio da leitura e da escrita, não há nenhuma produção de som. O que vai sendo escrito é fruto dos pensamentos de cada uma delas, sem que suas palavras passem pelo crivo da consciência. Explicando, nós temos o hábito de pensar e de falar. Geralmente não falamos tudo quanto pensamos, pois ao articularmos a fala, tudo passa pelo crivo da consciência que atua como filtro de conveniência. O mesmo não acontece no chat, pois ao ler o que está escrito, a leitura se faz direto no nível do pensamento e, ao escrever o que se pensou, as palavras saem da mente para o computador. A consciência fica praticamente inoperante, porque ela estava habituada a tão somente agir no âmbito da fala. Como resultado, todo aquele que se relaciona por meios virtuais tendem a fazer coisas que não lhe seriam naturais pelos meios convencionais.

Em função dos relacionamentos virtuais se formarem basicamente no nível do pensamento e, mais ainda, todo ele ser articulado pela sonoridade da mente, a consequência é que este tipo de relacionamento promova ainda mais o egocentrismo do ser humano. Podemos afirmar que quanto mais amigos virtuais temos, maior se torna a sensação de solidão, não porque não tenhamos muitos amigos, mas porque eles não são discerníveis por elementos naturais, como entonação de voz, trejeitos físicos, movimentos corpóreos. Antes, todo o relacionamento nasce e morre no âmbito dos pensamentos. Para todos os efeitos alguém falando com o outro por meios virtuais, equivale a estar falando consigo mesmo, a mente perde a capacidade de distinguir o “eu” do outro. Como a frequência deste tipo de relacionamento tende a aumentar, um dos seus produtos é reafirmar o cumprimento do vaticínio feito pelo apóstolo Paulo quando caracterizou os últimos dias como sendo “... tempos difíceis, pois os homens serão egoístas... (II Tm 3.1,2).

Outro aspecto a ser levado em conta no âmbito dos relacionamentos virtuais diz respeito a necessidade de produção de provas físicas da existência do indivíduo. Explicando melhor esta questão, uma das ferramentas que mais promovem os relacionamentos virtuais é o Facebook. Por meio deste dispositivo é possível postar fotos ou vídeos no mesmo instante em que elas são produzidas. Não somente isso, como também as pessoas estão fornecendo informações sobre o que estão fazendo e onde estão localizadas geograficamente. Estas informações se tornam necessárias porque o amigo virtual não está vendo, precisando ser atualizado a cada movimento do indivíduo. Frase, fotos e vídeos se tornam um verdadeiro GPS comprobatório da existência. O correspondente desta atitude é que a pessoa se torna ainda mais valorizada por aquilo que ela tem, visto que os momentos são eternizados. Digamos que dois amigos se encontram pessoalmente e casualmente em dado lugar da cidade. Digamos que este lugar seja o lixão da cidade. Obviamente aquele não é dos melhores lugares para trocarem amenidades, pois o cheiro horrível, a poluição visual, tudo concorre contra a alegria daquele momento. Todavia, findo a conversa, os amigos se deslocam daquele lugar e o ambiente ficou esquecido, vindo a memória o conteúdo da conversa. Quando esta mesma cena é convertida em fotos ou vídeos, ela se perpetua, visto uma vez é casual, visto de novo, o ambiente começa a evidenciar-se, visto na terceira vez se questiona se lixão é lugar para dois amigos conversarem. Assim, elementos que antes passariam despercebidos, de tanto ser visto, se tornam predominante, distorcendo as evidências que seriam privilegiadas nos encontros reais.

Há de se acrescentar que a exigência de fotografar ou filmar o momento existencial cria dentro do indivíduo uma compulsão por se mostrar ao outro. Se antes um casal usufruía de seus momentos românticos em um restaurante qualquer, agora se veem obrigado a compartilhar com uma multidão aquela hora íntima. Assim, mesmo os relacionamentos físicos se tornam distorcidos em detrimento a um pretenso relacionamento virtual. É como se dissesse ao ser presente: - você nada me comunica, pois para minha vida ganhar sentido, preciso compartilhar você com mais alguém. Deste modo o físico é anulado pelo virtual, fazendo com que mesmo um encontro entre dois amigos agrave a solidão de cada um deles, porquanto eles não mais se bastam.

Pode-se dizer, com certeza, que a proliferação deste estilo de vida fará com que muitos, que antes conviviam com sua própria solidão de modo pacífico, se torne cada vez mais impulsivo e repulsivo para com os relacionamentos reais e físicos. Como no ambiente virtual está habilitado a conversar somente no âmbito de seus próprios pensamentos, a voz audível do outro se torna agressiva e inconveniente. O resultado é o cumprimento cabal do restante do vaticínio do apóstolo Paulo:

Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. (II Tm 3.1-5)

Se atentarmos para a lista veremos, por exemplo, a explicação do porque pais estão matando seus filhos e filhos os seus pais, pois basta juntar duas destas características: “desobedientes aos pais” e “desafeiçoados”. A soma destes dois comportamentos não poderia ser outro senão mais uma das características desta desconcertante lista: “cruéis”. Nas prisões que ocorrem após estes eventos atordoantes, quando se entrevista o assassínio, o que mais se destaca em sua fala é a completa falta de consciência do ato praticado. Ficamos nos perguntando como alguém pode ser tão frio, a ponto de matar toda sua família e, depois, comentar do fato como se tivesse tomando café na esquina:  Os anos correspondendo com amigos virtuais, gerando relacionamentos todos centrados nos pensamentos, sem o uso da necessária consciência que se é obrigado a usar, quando se converte pensamento em fala, cobra seu maligno preço – estamos conhecendo uma geração de pessoas cruéis.

Qual é o conselho do apóstolo acerca deste tipo de gente? Paulo é contundente: “... Foge também destes” (II Tm 3.5). Obviamente qualquer que conheça este tipo de gente não teria outra atitude senão manter-se longe deles, pois saberia dos possíveis estragos que tais relacionamentos poderiam trazer para consigo. O problema é que estamos tão habituados com os sistemas de relacionamentos virtuais que contribuem para a produção deste tipo de gente que não percebemos estarmos ficando cada vez mais iguais a eles. Nós queremos ver méritos nas tecnologias que se tornaram facilitadores da vida moderna, contudo pouco refletimos sobre as implicações proféticas que elas trazem consigo. No livro de Daniel temos uma advertência: os fins dos tempos serão caracterizados pelo multiplicar da ciência (Dn 12.4) e, no livro do Apocalipse, nos é apontado o fim último de toda tecnologia: a criação da marca da besta por meio da qual todo o sistema financeiro será malignamente monitorado e controlado (Ap 13:15-17). 

O que nos cabe fazer hoje é termos consciência do impacto da tecnologia em nosso estilo de vida, criando cada um limites para o uso das tecnologias segundo os traços de sua própria personalidade. Se alguém, por exemplo, tem a tendência para viver isolado, quanto maior for sua distância dos relacionamentos virtuais e maior sua aplicação nos relacionamentos presenciais, menor será a tendência de agravar sua solidão. Se devemos nos afastar daqueles que já tem seu comportamento agravado por estas tecnologias, também precisamos nos precaver de não sermos contaminados por elas ao ponto de nos constituir mais um desta lista perversa.

Clique e comente este texto

“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Rm 6:23)

Clique para o Plano de salvação por pergunta

Clique para o Estudo para novo convertido - 01/10

Clique para o Estudo para batismo 01/10

Clique para o texto Ministração para libertação interior e perdão

Clique e de seu testemunho de aceitar a Cristo como Senhor e Salvador pessoal