Diminuir a fonteAumentar a fonte 18/01/2008
Despedida por hora, apenas
por Heidi Schulz

Acabei de chegar em casa...de novo...to sempre indo e vindo nos últimos dias.

Hoje, meia no piloto automático, depois de dormir na igreja... acabei ficando com uma amiga da família lá, a noite toda...mãe e pai cansados, e hj o dia vai ser longo pra eles...

Chaveamos tudo, deixamos luzes ligadas e deitamos no berçário, juntando colchoezinhos...e...apesar de ser fúnebre...igreja imensa e vazia...vó lá...descansei por 3 horas...já ta bom....

Não digo que é coisa simples, pq cabeça é coisa maluca...e morte e mortos sempre são mistério pra maioria das pessoas...e se era pra mim, não é mais...

Minha amiga tinha certeza de que não ia pregar o olho, pela situação...mas oramos...e tudo bem.

Tudo normal.

Qdo olhei pelo vidro, disse pra ela que tudo estava igual ontem...como se algo pudesse ter mudado durante a noite solitária...

Ontem quando cheguei na mãe e entrei no quarto da vó, passei os olhos ao redor e ví tudo que era dela lá...óculos, bíblia, porta retratos...bibelôs...não teve como não pensar no significado da vida e da morte...

A vida é quente e devia ser de felicidade todos os dias...e a morte?

Estranha, gelada e solitária...

Ela vem, leva o que pertence a ela(o corpo apenas)e vai embora...do mesmo jeito que veio...fria e vazia.

Estranho passar uma vida construindo coisas e relações...sonhando, desejando, fazendo...e assim...do nada...ou do tudo...deixar todo este fato ou esforço no devido lugar...

Partir sem dar adeus pra ninguém e sem levar bagagem alguma consigo...

Nesta hora assim, penso que não devo nada a ninguém.

Muito pouca satisfação....se é que devo alguma ainda...

Na verdade, se algo devo, é apenas a mim, como pessoa e como mulher.

E fica um desejo imenso de viver e ser feliz a cada segundo...aproveitar até a ultima lambida do sorvete de pistache, aquilo que existe de bom...

Filhos, familia...risadas, conversas...flores...comidas...musica...sol...

Ser contente com o que se tem...e ser feliz com aquilo que conseguimos ser...

Sonhar se nos faz feliz...

Chorar se isso nos alivia a alma...

Amar as pessoas...com seus defeitos, suas chatices...amar por amar mesmo...amar pra fazer aquele que é amado, saber que não está sozinho....

Encerro aqui, mais um ciclo de minha vida.

Ciclo que nem sabia que era ciclo, mas que fez parte do meu crescimento, como pessoa, como filha e como neta.

Amei minha vó todos os dias...disse pra ela isso com todas as letras...sem vergonha...sem nada...também todos os dias...

Ri com ela, briguei no bom sentido com ela...purganteei com comida, café, água "fonte", sorvete e cerveja preta....sopa sem sal...

Passei talco pq dizia que ela era uma mulher bonita e tinha que ser cheirosa...

Pela primeira vez na vida dela, lavou o cabelo com xampu e condicionador, e eu dizia que o cabelo dela era brilhante e bonito...até as pontas eu cortei e ela fez de conta que não viu...rsss....

Fiz trança todos os dias,com fita no final,como ela fazia comigo qdo eu era criança....

Contei "causos", inventei histórias sem fundamento, fiz de conta que era muito entendida em todas as doenças que ela dizia ter...rssss....

Arrumei o pulso "n" vezes, porque ela sempre insistia em apertar demais...rssss...gastei o cataflan dela todinho pra tirar as manchas roxas...

Vivi cada dia com ela , intensamente.

Entre risos e piadas, pegação de pé...disse pra mãe, que isso é coisa de familia mesmo...

E hoje...agora...sabendo que ela dorme no Senhor...mesmo chorando,pq não tem como não ficar emocionada...louvo a Deus por que vim pra cá...porque fiquei com ela...porque de alguma forma, participei do ultimo suspiro dela, com aquilo que aprendi a respeito da palavra de Deus!

Sobra só a saudade das 1.500 vezes por dia que me chamava de "aidizinha, minha bonecra, maikinda, mainhertz"...e a pena...de ter feito tão pouco por quem foi tão rápido!

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