Diminuir a fonteAumentar a fonte 26/06/2014
O contexto contemporâneo do ministério de João Batista
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

“Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.” (Mt 3.1,2)

Naqueles dias... Ah! Como nos angustiamos por dias assim, dias de expectativas da intervenção divina na história humana. Já havia passado 400 anos desde que Deus se calara. Como não havia palavra profética, o povo de Israel se sentia perdido, pois vivia oprimido pelo império romano, sem perspectiva de futuro senão sua esperança da vinda do Messias. No silêncio de Deus muitos falavam como Seus mensageiros. Assim é o homem, não consegue aquietar-se diante de Deus e esperar por Sua palavra, antes sente quase uma compulsão de dizer-se autorizado pelo céu para proclamar a verdade à terra. Os judeus ou ouviam os escribas que exigiam a obediência restrita à lei de Moisés como forma de exercitar a espiritualidade, ou escutavam os apocalípticos com suas pregações de libertação escatológicas eminente como forma de libertar-se do jugo romano. Neste período não foram poucos os que pegaram em armas em prol da independência de Israel com o propósito de implantar o reino de Deus à força. Outros se consideravam mais iluminados, apartando-se do povo, indo morar nas grutas do deserto porque criam na eminência da instauração do reino de Deus.

Podemos fazer um paralelo daqueles dias com os que estamos vivendo. Tivemos um significativo cumprimento profético com Israel voltando à sua terra em 1948 (Is 66.8). Desde então entramos no que Jesus intitulou “dias de Noé” (Mt 24.37), Paulo o chamou de “últimos tempos”, período este que recebe severa advertência do próprio Espírito Santo por conta do aumento da apostasia e da infestação de espíritos demoníacos e enganadores (I Tm 4.1). Como resultado desta intervenção satânica, a sociedade está se tornando cada vez mais materialista, secularista e cética. Muitos decretaram a morte de Deus, um movimento em escala mundial procura combater com toda a pertinácia tudo que possa associar ao Deus deposto. Proclama-se o fim do casamento, a abolição das leis morais, o império da consciência individual onde tudo é permissível. O cristianismo é visto como um inimigo a ser combatido por sua visão medieval, conservadora, preconceituosa, intolerante e fundamentalista. Neste cenário extremamente anticristão, muitos crentes sinceros anseiam pela manifestação similar ao daqueles dias de João Batista. Ou esperam, lutam e oram por um avivamento ou gemem na esperança da volta do Senhor Jesus Cristo para colocar um basta neste cenário desolador.

Cabe-nos perguntar como João Batista refletia acerca dos eventos à sua volta antes de iniciar seu ministério. Desde o anúncio do seu nascimento havia sinais evidentes da manifestação de Deus em sua vida. O anjo anunciara a seu pai quando este exercia seu ministério no templo, que sua esposa seria curada da esterilidade (Lc 1.13), dando luz àquele que haveria de chamar-se João e que viria a ser à voz profética de sua geração (Lc 1.17). De sua infância e adolescência nos é dito que João vivia nos lugares desertos, crescendo e se fortalecendo em espírito (Lc 1.80). E foi no deserto que ele apareceu “pregando batismo de arrependimento para remissão de pecados” (Mc 1.4). Proclamava João Batista: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2). Sua voz profética tinha o único objetivo de preparar o caminho para a manifestação do Senhor Jesus Cristo. João anunciava a primeira vinda de Jesus Cristo, este era seu ministério.

Quando lemos o evangelho de Mateus, nos deparamos com a expressão: “Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto...” (Mt 3.1). Onde mesmo apareceu João Batista? No deserto. Muitos anos mais tarde o Senhor Jesus fez menção a este fato, questionando o povo do que fora buscar no deserto, pois ninguém vai a um lugar árido, solitário e desabitado para procurar riquezas e prosperidade (Mt 11.8). Jesus mostrou que as pessoas buscavam João Batista porque viam ele como um profeta, um mensageiro de Deus (Mt 11.9). João Batista não era reconhecido por falar o que o povo gostava de ouvir, antes exortava a todos para arrependerem-se diante de Deus por causa da ira vindoura (Mt 3.7). Ele exortava aos crentes produzirem frutos dignos de arrependimento (Mt 3.8). Uma de suas exortações é extremamente contemporânea: “Não cobreis mais do que o estipulado” (Lc 3.13) e outra, similar a esta também: “A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa e contentai-vos com o vosso soldo” (Lc 3.14). João Batista estava a demonstrar que a corrupção é uma das evidências mais significativas da depravação da raça humana como resultado direto da queda do homem no jardim do Éden. 

Muitos cristãos hoje buscam a palavra de Deus nos lugares glamorosos, nos templos ricamente adornados, com pastores afamados e midiáticos, cuja mensagem exorta-os a busca incessante da prosperidade financeira e saúde perfeita. Mesmo sob a ótica das coisas terrenas, João se diferenciava por exaltar a honestidade e a misericórdia como fundamentos do relacionamento com Deus. Para ele o caráter era mais importante que a condição social, econômica ou política do indivíduo. Não vemos João promover levantes contra o governo romano, antes sua mensagem centrava na purificação do coração como condição necessária para adentrar no reino de Deus. João não tinha intenção de ser consciência dos políticos e religiosos de sua época, não era das realidades terrenas que se ocupava, mas da urgência e premente necessidade do batismo com o Espírito Santo e com fogo (Lc 3.16). João resgatava antigas promessas feitas pelos profetas a Israel, como a de Isaías, por meio do qual Deus prometera: “Porque derramarei água sobre o sedento e torrentes, sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção, sobre os teus descendentes” (Is 44.3). 

A promessa do derramamento do Espírito Santo (Jl 2.28,29) era o meio pelo qual Deus traria a era messiânica na qual reinaria a justiça, a paz e a prosperidade como podemos ler: “até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto; então, o deserto se tornará em pomar, e o pomar será tido por bosque” (Is 32.15). A moderna mentalidade cristã tem se apegado a esta palavra do fim para o começo. Por desinformação sobre o modo como Deus implantará o reino de Deus, querem aqui e agora as bênçãos deste reino sem que o Rei esteja no trono. Jesus, em Seu ministério terreno, falou desta era ao profetizar a vinda do Filho do Homem com Seus santos, como podemos ler: “Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória” (Mt 24.30). Depois deste evento ainda teremos uma longa jornada para adentrarmos na eternidade, teremos o reino milenar do Senhor Jesus (Ap 20.4), o juízo final no qual todos os que não tiverem seus nomes escritos no livro da vida serão lançados no lago de fogo e enxofre (Ap 20.15) para só então adentrarmos novo céu e nova terra (Ap 20.15). Até este dia chegar teremos que conviver com um mundo ímpio, notadamente anticristão, sempre pronto a se levantar contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto (II Ts  2.4). 

O que João Batista veio anunciar não foi a instauração do reino milenar nesta terra antes da hora, mas a vinda do Espírito Santo como condição essencial para dar ao povo de Deus um novo coração e um novo espírito (Ez 36.26), fazendo com que o crente se tornasse no próprio templo do Espírito Santo (I Co 6.19). O gasto de milhões com templos suntuosos só demonstram a miopia da moderna mentalidade cristã por ignorar completamente a verdadeira obra de Deus nesta era. Um dos grandes propósitos do Espírito Santo é habilitar o cristão a ver a Deus e para que este feito se realize necessário é que tenhamos um coração limpo (Mt 5.8), porquanto sem santificação ninguém verá o Senhor (Hb 12.14). Por esta razão, por meio de sua pregação direta e profética, João Batista tinha por intenção “converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado” (Lc 1.17). João tinha por meta a instauração do reino de Deus, não a conversão do governo romano como exemplo de implantações de políticas públicas. João não se deixava iludir por promessas políticas muito bem articuladas, que prometem utopias que nunca podem ser entregues. Antes João falava do batismo com fogo, dizia ele que o Senhor, a sua pá “tem na mão e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível. (Mt 3.12). João tinha convicção que ninguém podia fugir da ira vindoura (Mt 3.7), do juízo final conforme fora anunciado por outro João, o evangelista: “Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles” (Ap 20.11). Tente por um instante visualizar esta cena: se os céus e a terra fogem da visão deste terrível juízo, que lugar é este que está para além do universo, ao ponto dos céus e da terra encontrar um canto para esconder-se?

Na essência João Batista pregou que Deus está agindo em duas direções: promovendo a salvação dos justos e no devido tempo, o julgamento dos ímpios. Toda e qualquer injustiça que hoje se cometa, haverá o dia do acerto de conta, todavia agora não é hora senão de salvação e de preparação para a segunda vinda de Jesus Cristo, circunstância esta que se dará o eminente arrebatamento da igreja, a noiva de Cristo. Vigiemos pois, e não nos deixemos enganar com falsos cristos que se apresentam.