Diminuir a fonteAumentar a fonte 28/06/2014
O questionamento de João Batista
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

“Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras de Cristo, mandou por seus discípulos perguntar-lhe: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? (Mt 11.2,3)

Nós vivemos na era do conhecimento. Desde o advento da internet a ciência se multiplicou vertiginosamente. A IBM, por exemplo, conseguiu uma proeza extraordinária. Seus engenheiros conseguiram armazenar 85,9 bilhões de bits por polegada quadrada. Estes dados foram gravados em fita magnética. Em uma única fita magnética a IBM conseguiu armazenar 154 terabytes, o que é equivalente a 154 milhões de livros que, colocados um do lado do outro como em uma estante teríamos 1.450 km de livros. Se consideramos a internet, então os números que expressam o conhecimento sobem para a estratosfera. Segundo o site canaltech.com.br  diariamente são postados 144 bilhões de e-mails, são visitados 3,5 bilhões de páginas por mês nos 634 milhões de sites web. Só o Facebook tem um bilhão de usuários ativos. No ano de 2012 houve 1,3 trilhões de buscas no Google. No Youtube temos 4 bilhões de horas de vídeo publicados. No Instagram já foram postados 5 bilhões de imagens, o que dá 58 fotos enviadas a cada segundo. O volume de informação na rede é de tal magnitude que deveria nos fazer curvar diante de nossa ignorância, isto porque como o conhecimento decorre da capacidade que temos de apreender a realidade, dominando-a, este tsunami de dados nos traz a sensação de insegurança, pois nossas crenças são insuficientes para compreendê-la.

Para o indivíduo conseguir lidar com a informação sem perder o controle da realidade, ele tende a diminuir a complexidade das coisas até enquadrá-la na dimensão do seu saber. Com isso ele toma o mundo como algo acabado, inerte e rotineiro, fazendo inflar seu orgulho com o pouco que sabe. Esta sensação de certeza tem se introduzido na moderna mentalidade cristã. Para lidar com a complexidade da teologia, a primeira tarefa tem sido ignorar a produção da literatura cristã anterior ao século XIX. Eles entendem que os pensadores do passado se deixavam contaminar por uma religiosidade dissociada da ciência, portanto inaptos na capacidade de responder aos desafios do século XXI. O que se coloca em voga atualmente são as novas revelações, como se as doutrinas cristãs sem os teólogos contemporâneos ficasse incompletas. Quem julga encontrar uma verdade logo presume que o mundo tem de curvar à sua sabedoria, então vemos líderes evangélicos alerdando e propagandeando suas verdades revolucionarias como se o cristianismo tivesse começado com eles. Este perigo não é de agora, tem pelo menos uns quinze bilhões de anos. O primeiro a considerar seu saber como sendo o referencial universal da verdade foi Lúcifer. O próprio Senhor Deus chegou a avaliar sua pretensão nos seguintes termos: “Visto que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus” (Ez 28.6). Mais adiante acrescentou: “Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor...” (Ez 28.17). O veredito divino sobre Lúcifer evidencia que quanto mais nos julgamos os únicos porta-vozes da verdade, mais longe estamos dela, maior a corrupção do nosso próprio saber.

No Novo Testamento, afora Jesus, ninguém foi dotado de mais conhecimento das revelações divinas que o apóstolo Paulo. Ele foi agraciado por Deus para nos trazer verdades que ficaram oculta nos milênios antes dele. Fazendo referência àquilo que lhe fora dado por Deus, Paulo escreveu: “segundo uma revelação, me foi dado conhecer o mistério, conforme escrevi há pouco, resumidamente; pelo que, quando ledes, podeis compreender o meu discernimento do mistério de Cristo, (Ef 3.3,4) e, mais adiante, complementou: “e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas” (Ef 3.9). Todavia, mesmo sendo portador de tão grandes revelações, Paulo ateve-se fiel ao que recebera ao ponto de afirmar: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei...” (I Co 11.23). Aos romanos Paulo advertiu acerca do conhecimento dizendo: “... digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Rm 12.3). Ele próprio sentia-se na obrigação de se limitar: “Porque não ousarei discorrer sobre coisa alguma, senão sobre aquelas que Cristo fez por meu intermédio, para conduzir os gentios à obediência, por palavra e por obras” (Rm 15.18). E, uma vez anunciado o evangelho, achou necessário advertir que ele próprio poderia errar: “ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gl 1.8), vindo a elogiar os bereianos por buscar comprovação de seus ensinos: “estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” (At 17.11). Ademais Paulo se deixava submeter ao tratamento dado pelo próprio Deus para impedir que o orgulho cegasse seu conhecimento, dando o seguinte testemunho: “E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte” (II Co 12.7). Assim, em todas suas cartas Paulo evidenciou quão perigoso era afanar-se do conhecimento, distanciando-se dos homens de Deus que vieram antes de nós.

Que dizer então de João Batista? Ele foi considerado por Jesus Cristo como o maior profeta do Antigo Testamento (Mt 11.11). Ele foi o cumprimento notável da profecia acerca da vinda de Elias (Mt 17.11-13). João Batista fora responsável por anunciar a vinda do Messias (Jo 1.29-31). Nos seus dias ele ouviu falar das obras de Cristo enquanto desenvolvia seu ministério às margens do rio Jordão, isto depois dele próprio ter batizado Jesus Cristo nas águas (Mt 3.16). Ocorre que João Batista focava toda sua mensagem em um único ponto: O Messias viria para batizar com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11) e, neste sentido, as obras de Cristo lhe eram incompreensível. João entendia que após sua pregação o Espírito Santo derramado sobre toda carne, os justos separados dos ímpios, os primeiros para a vida eterna, os outros para a condenação eterna, então o reino de Deus seria instaurado para todo sempre. Nada disso se equacionava com o que ele ouvia de Jesus. Então, tendo sido preso, sabendo que seus dias estavam contados, mandou seus discípulos questionarem se Jesus Cristo era mesmo o Messias ou deviam esperar por outro (Mt 11.2,3).

A pergunta feita por João Batista nos faz perguntar a nós mesmo se realmente estamos compreendendo a agenda divina para nossa época. Ele é um exemplo notável que podemos estar desenvolvendo um ministério genuíno, contudo sem compreender o que verdadeiramente estamos agregando no reino de Deus. Isto para falar positivamente, porque pode ocorrer o contrário, o que é pior, fazermos algo que impacta no reino de Deus sem que venhamos a ser beneficiados pelas nossas obras. Temos dois exemplos nas escrituras, o primeiro o de Paulo: 

“Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade; estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; aqueles, contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias. Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei. (Fl 1.15-18)

Por fim o próprio Senhor declarando o que pode acontecer com os que pregam a Cristo por inveja, porfia, discórdia, insinceramente ou por pretexto. Disse Jesus:

“Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade. (Mt 7.22,23)

A questão feita por João nos faz entender que não podemos engatar uma primeira, mover o veículo à frente, sem considerar quem de fato está no controle do volante. A palavra de Deus tem Sua própria autonomia, uma vez proclamada ela pode alcançar os resultados por ela empreendidos, pois diz o Senhor: “assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei” (Is 55.11), A questão feita por João nos faz também entender que temos de agir como os bereianos, que “receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” (At 17.11).