Diminuir a fonteAumentar a fonte 29/06/2014
A posição de João Batista
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

"Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele. Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele. Porque todos os Profetas e a Lei profetizaram até João." (Mt 11.11-13)

João estava preso, meditando sobre as obras de Cristos (Mt 11.2), correlacionando com a mensagem central de seu ministério que era a de que Cristo batizaria os crentes com Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11).  Para ele as obras de Cristo não fazia sentido, o que o levou a se perguntar se realmente Jesus Cristo era o Messias anunciado (Mt 11.2). No entendimento de João Batista o Messias viria para instaurar o reino de Deus, fazendo uma separação entre os justos e os ímpios, dando aos primeiros a vida eterna e lançando os demais ao fogo inextinguível (Mt 3.12). João Batista foi fiel ao seu ministério, diferente de muitos hoje que estão a pregar outro evangelho (Gl 1.6), com isso se tornando inimigos da cruz de Cristo por ter como foco tão somente as realidades terrenas (Fl 3.18). O fato é que mesmo sendo fiel no seu ministério, João Batista precisou rever o conceito que tinha das obras de Cristo. Jesus Cristo mostrou a João que Ele cumpria as profecias messiânicas, como a do profeta Isaias: “Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo.” (Is 35.5,6). Após os emissários de João se retirarem para dar a João a resposta do Messias, Jesus voltou-se para a multidão com o propósito de explicar as “obras de João”. Esta explicação é fundamental para compreendermos as “obras de Cristo” e não sermos enganados com um modelo evangélico que tem por propósito fazer a igreja voltar ao sacerdotismo e ao profetismo nos moldes do Antigo Testamento.

Israel era depositário da lei divina (Rm 9.4). Depois de Moisés receber os dez mandamentos ele profetizou a vinda de um profeta semelhante a ele que deveria ser ouvido (Dt 18.15). Este profeta foi o próprio Jesus Cristo. O Senhor confirmou esta palavra ao declarar: “... se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito” (Jo 5.46). Ocorre que se havia uma semelhança entre Moisés e Jesus, no conteúdo uma completa distinção, isto porque Moisés foi responsável por introduzir a Lei, enquanto que Jesus Cristo trouxe a graça e a verdade (Jo 1.17). Ademais esta distinção é complementar, porquanto o objetivo da lei é o de conduzir o indivíduo à Cristo com o propósito de o justificar pela fé (Gl 3.24). Se o ministério de Moisés foi encerrado com o inicio do ministério de Jesus Cristo, na antiga linhagem dos profetas que vinham desde Moisés, segundo o parecer do próprio Senhor Jesus, não houve outro profeta maior do que João Batista, é claro, excetuando o próprio Moisés (Mt 11.11). Há um sentido que nos permite declarar ter sido João Batista ainda maior que o próprio Moisés, isso de dá pelo fato de Moisés ter contemplado a essência de Deus (Dt 34.10), contudo João Batista viu a Cristo a descoberto (Jo 14.9), assim João Batista não somente foi o maior, como também o último profeta do Antigo Testamento, encerrando o ciclo da Lei e dos profetas, como está escrito: “Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João” (Mt 11.13).
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O que queremos enfatizar não é a distinção entre Moisés e João Batista, mas entre João Batista e qualquer que tenha nascido no reino de Deus. Leiamos as palavras do Senhor Jesus a este respeito: “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista; mas aquele que é o menor no Reino dos céus é maior do que ele” (Mt 11.11). Nós vimos que houve um sentido que fez de João Batista ainda maior que Moisés, está no fato dele ter conhecido o Cristo face a face a descoberto, visto que todo que vê a Jesus Cristo contempla o próprio Deus (Jo 14.9). Como podemos entender que o menor no reino dos céus é ainda maior que João Batista, se também estes puderam ver a Jesus do mesmo modo como João viu? Leiamos como isso se deu: 

“No dia seguinte, estava João outra vez na companhia de dois dos seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: Eis o Cordeiro de Deus! Os dois discípulos, ouvindo-o dizer isto, seguiram Jesus.” (Jo 1.35-37)

Observe que do mesmo modo como João Batista viu a Jesus, também dois discípulos o viram, sendo um deles André, irmão de Simão Pedro (Jo 1.40), cujo nome consta na lista como um dos apóstolos (Mc 3.14,18). Para compreendermos esta distinção entre João Batista e o menor do reino dos céus, precisamos voltar aos fatos históricos. João Batista morreu enquanto o ministério terreno de Jesus Cristo estava em curso, isto é, João morreu antes da morte e ressurreição de Jesus Cristo (Mt 14.10). Este fato é relevante porque o derramamento do Espírito Santo (At 2.1-4), que fora o tema central da mensagem de João Batista (Mt 3.11), só ocorreu 40 dias depois da ressurreição de Jesus Cristo. O próprio Senhor havia demonstrado que angustiava pelo momento de Sua morte, antevendo este derramar do Espírito Santo ao declarar: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto” (Jo 12.24). O que o Senhor Jesus estava a dizer era que Ele tinha a plenitude do Espírito Santo (Jo 3.34) e somente por meio de Sua morte este Espírito poderia ser compartilhado com Seus discípulos como prometera: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco” (Jo 14.16).

Jesus Cristo morreu, ressuscitou, ascendeu aos céus, assentou à direita de Deus e a promessa do derramamento do Espírito foi cumprida. Os discípulos no dia do Pentecostes ficaram cheios do Espírito Santo. O povo que estava presente naquele dia em Jerusalém ficou profundamente impressionado com este evento, ao ponto de achar que os discípulos estavam embriagados (At 2.13). Pedro, explicando aquela ocorrência demonstrou que estava se cumprindo as profecias de Joel: “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos” (At 2.17). Desde aquele dia todo crente em Jesus Cristo, nascido de novo, se tornou em habitação do Espírito Santo, como está escrito: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (I Co 3.16). A presença do Espírito Santo no crente não somente o tornou habitação de Deus no Espírito (Ef 2.22), como também constituiu todos os crentes em um só corpo – o corpo de Cristo como podemos ler:

“Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.” (I Co 12.12,13)

Desde o derramamento do Espírito Santo todos os crentes foram igualados diante de Deus por conta de possuírem todos, dentro de si, o mesmo Espírito. Como o Senhor Jesus havia prometido que enviaria outro Consolador, alguém dotado da mesma natureza divina que Ele próprio, a terceira pessoa da trindade, podemos concluir que todo e qualquer cristão, possuidor do mesmo Espírito, sendo habitação de Deus em Espírito, é maior que João Batista pelo simples fato que João não teve o mesmo privilégio. Se João foi profeta maior que Moisés por ter contemplado pessoalmente a Jesus Cristo (Jo 14.9), quão maior não é qualquer cristão em relação a João Batista, pois é habitação do próprio Deus, um templo ambulante. Se hoje João Batista ressuscitasse e quisesse conhecer a Deus, teria de dirigir-se a um crente em Jesus Cristo, em cujo interior habita o próprio Espírito de Deus.

Podemos concluir dizendo que uma das doutrinas mais destacadas pelos reformadores do século XVI foi a do “sacerdócio de todos os crentes”. Procuremos entender esta doutrina: Jesus Cristo é o grande sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque(Hb 5.6), sendo o único mediador entre Deus e os homens (I Tm 2.5), vivendo para sempre para interceder por nós (Hb 7.25). Nós nos tornamos participantes deste sacerdócio eterno como podemos ler: “também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (I Pd 2.5), de forma que é declarado de nós: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (I Pd 2.9). Podemos exercer este sacerdócio porque somos templo do Espírito Santo, temos acesso ao próprio Deus em Espírito (Ef 2.18) e partilhamos de um mesmo sacrifício eterno que foi o sangue de Jesus Cristo derramado na cruz para perdão de nossos pecados. Está na contramão da palavra ministrada por Jesus aqueles que se arvoram no direito exclusivo de serem portadores das bênçãos de Deus, pois a palavra de Deus nos demonstra estarmos habilitados pelo Espírito Santo que em nós habita para exercermos este sacerdócio como cooperadores de Jesus Cristo.