Diminuir a fonteAumentar a fonte 30/06/2014
A revelação de João Batista
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

“No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29)

Para entendermos certas coisas na Bíblia muitas vezes precisamos seguir a ordem cronológica dos textos. Nós temos quatro evangélicos, três deles chamados de sinópticos, isto é, que apresentam grandes semelhanças em suas narrativas. São eles Mateus, Marcos e Lucas. O Evangelho de João foi escrito bem mais tarde do que estes três e contou com fontes independentes ou distintas daquelas utilizadas pelos três outros evangélicos, além de uma visão teológica mais refinada. Quando lemos a progressão do ministério de João Batista nos três primeiros evangelhos e, depois, no Evangelho de João, percebemos que ele amadureceu no entendimento na compreensão da missão do Messias que ele próprio anunciava.

Sabemos que o pai de João Batista recebera a revelação acerca do ministério de seu filho. O anjo lhe dissera: “E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado” (Lc 1.17). Como resultado do exercício deste ministério muitos dos filhos de Israel haveria de se converter ao Senhor (Lc 1.16), porquanto João Batista seria cheio do Espírito Santo (Lc 1.15). Uns três meses depois o anjo Gabriel anunciou a Maria que ela seria mãe do Messias, fazendo-a saber também que Isabel, mãe de João, estava grávida. Maria foi até a casa de Isabel visita-la e, ao chegar, o filho no ventre de Isabel estremeceu de alegria (Lc 1.44), sendo ela possuída pelo Espírito Santo (Lc 1.41). Naquele instante João Batista fora pela primeira vez impactado pela presença de Jesus Cristo, ainda que ambos estavam no ventre de suas mães. Depois é dito que João passou sua infância até sua juventude no deserto, crescendo e se fortalecendo em espírito, enquanto aguardava o dia que haveria de manifestar-se a Israel (Lc 1.80)

No evangelho de Marcos vemos João Batista se apresentando como a voz do que clama no deserto pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados (Mc 1.1,4, Mt 3.3 e Lc 3.4). Marcos e Mateus fizeram referência as vestes de peles de camelos usadas por João (Mc 1.6, Mt 3.4). Mateus relata que muitos vinham de Jerusalém, de toda a Judéia, e de toda a circunvizinhança do Jordão para serem batizados, confessando seus pecados (Mt 3.5). Mateus e Lucas contam que os fariseus vieram questionar o ministério de João Batista, sendo duramente exortados nos seguintes termos: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.7,8, Lc 3.7,8). Lucas enfatiza algumas perguntas feitas pela multidão questionando como deviam se comportar depois de serem batizadas, a estes João os exortava a não se deixarem corromper pelo sistema político vigente (Lc 3.11,13). Depois os evangelhos sinóticos relatam a proclamação mais importante de João Batista, aquela que apresentava o Messias: “Eu, na verdade, vos batizo em água, mas vem aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de desatar a correia das alparcas; ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo” (Lc 3.16, Mc 1.7, Mt 3.11). Mateus e Lucas enfatizam sua proclamação apocalíptica: “A sua pá ele tem na mão, e limpará bem a sua eira; recolherá o seu trigo ao celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível” (Mt 3.12, Lc 3.17). Até este momento o próprio Jesus, que era parente de João e seis meses mais novo que ele (Lc 1.36), ainda não tinha se apresentado a João.

Por este tempo João já demonstrara notável maturidade ministerial. Precisamos levar em conta que já se passara 400 anos desde o último profeta, Malaquias, ter pronunciado seus juízos a Israel. Malaquias advertira Israel ressaltando o amor imutável de Deus por seu povo. Exortara-os ao arrependimento, fazendo saber que grande e terrível dia do Senhor haveria de vir, não sem antes Deus enviar o profeta Elias (Ml 4.5) e a vinda do Messias como sendo o Anjo da aliança (Ml 3.1). João Batista deu continuidade a esta mesma mensagem, conclamando o povo ao arrependimento. É importante considerar o equilíbrio da pregação de João Batista. Ao mesmo tempo que ele proclamava o grande e terrível dia do Senhor, também anunciava a necessidade de arrependimento. No interstício João fazia questão de ressaltar que antes do juízo o Messias viria batizando no Espírito Santo e no fogo. O que intrigava João era que relação haveria entre o Messias e o arrependimento ou o Messias e o grande dia do Senhor. Em que pese o fato dele ministrar todas estas mensagens, alguma coisa lhe faltava, sua cosmovisão não fechava, pois ele estava na condição de pregar sermões temáticos, sem consistência para uma mensagem expositiva. Muitas vezes isso acontece conosco, ao mesmo tempo em que ministramos certos temas da palavra de Deus, aspectos importantes e fundamentais da teologia nos parece obscuros, exigindo que nos aprofundemos continuamente sobre o conteúdo de nossas próprias pregações. Pedro demonstrou esta progressão nos seguintes termos: “Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração” (II Pd 1.19).

João Batista presenciou muitas confissões de pecados antes de ministrar o batismo nas águas do arrependido (Mt 3.6). João Batista não era imune ao que ouvia, pois quem habitualmente ministra o arrependimento sabe que muitas vezes aspectos importantes que são levados à confissão confrontam também o conselheiro a rever seus valores. O próprio Senhor questiona a atitude de alguns que estão sempre prontos a exortar o outro, contudo não enxergam a si mesmo ao perguntar: “Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio?” (Mt 7.3). O Apóstolo Paulo, nesta mesma temática, dá o seguinte conselho: “se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado” (Gl 6.1). Então é de se perguntar: se João Batista poderia ser confrontado com àqueles que estavam sendo batizado pelas confissões que faziam, qual seria sua atitude ao se postar diante de Jesus Cristo, o único ser humano depois de Adão que jamais teve pecado algum (Hb 4.15)? Leiamos como se deu este encontro:

“Por esse tempo, dirigiu-se Jesus da Galiléia para o Jordão, a fim de que João o batizasse. Ele, porém, o dissuadia, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim? Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça. Então, ele o admitiu.” (Mt 3.13-15)

Note como a presença de Jesus Cristo impactou João. Ele não só reconheceu-se pecador, como também indigno de batizar Jesus Cristo. O Apóstolo Pedro também teve o mesmo comportamento quando foi-lhe revelado estar diante do Senhor, vendo-se despido, imediatamente se vestiu (Jo 21.7). No Jardim do Éden Adão se viu nu, com medo e se escondeu quando Deus se manifestou (Gn 3.10) e o profeta Isaías, diante da glória de Deus clamou: “ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!” (Is 6.5). João Batista não só viu sua pecaminosidade como também  teve profunda revelação do significado do batismo nas águas, isto porque João Batista associou a imersão de Jesus Cristo nas águas com a morte e, em trazendo Jesus à tona, à ressurreição. Por certo lhe veio naquele instante à memória que um judeu, ao reconhecer seu pecado devia transferi-lo ao cordeiro pela imposição de suas mãos, para que, em seguida, o cordeiro fosse imolado, isto é, morto (Lv 4.15). Ao reconhecer que Jesus era um homem sem pecado, reconhecimento este dado ou por revelação ou por em decorrência da pública confissão feita pelo Senhor, João Batista entendeu que a imersão do Senhor equivalia ao cordeiro substituto que assumia sobre si todos os pecados que outrora fora imerso nas águas (visto que os pecadores também faziam este ato, contudo sendo digno de morte, diferente do Senhor, sem pecado algum). Deste dia em diante João acrescentou à sua mensagem a revelação que lhe faltava, como podemos ler: “No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). 

Dois fatos significativos contribuíram para que fosse revelado a João Batista que ele estava diante de um homem sem pecado. Primeiro porque viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre Jesus Cristo (Mt 3.16), depois porque ouviu uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo (Mt 3.17). Em outro lugar João atestou que a vinda do Espírito Santo sobre Jesus Cristo confirmava ser o próprio Jesus Cristo como aquele a quem João anunciava como o que batiza com o Espírito Santo (Jo 1.33), depois porque o próprio Deus havia lhe dito que este sinal confirmaria a João que ele estaria diante do próprio Filho de Deus (Jo 1.34). Associando ao fato do Senhor Jesus se deixar batizar nas águas, assumindo o lugar do pecador, não foi outro o entendimento de João Batista senão o de afirmar estar diante do Cordeiro de Deus (Jo 1.36). Daquele dia em diante seu ministério teve uma notável diferença, pois antes as pessoas ouviam João Batista e queriam segui-lo, procurando saber mais das coisas de Deus, agora, com o testemunho dado por João, as pessoas o abandonavam para seguir ao próprio Jesus Cristo (Jo 1.37). Longe de sentir-se desprestigiado e abrir uma disputa por espaço religioso, João deu o seguinte testemunho de humildade: “O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Convém que ele cresça e que eu diminua.” (Jo 3.29,30). Que seja esta a disposição que guie nosso ministério, quanto mais conhecemos do Senhor Jesus, mais levemos almas para segui-lo, não a nós, que o reino de Deus leve todo crédito.