Diminuir a fonteAumentar a fonte 02/07/2014
O reino de Deus
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

“Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.” (Mc 1.14,15)

A primeira declaração feita pelo Senhor Jesus, em seu ministério terreno, era que o reino de Deus está próximo. Como é de Deus o reino, não do homem, a conta do tempo feita pelo Senhor Jesus não se mede em dias, mas por milênios, cujo reflexo para nós representa uma grande extensão de tempos, para o Senhor alguns dias. Acerca da relatividade do tempo para o Senhor, aliás, Pedro nos exorta a não nos esquecermos disso: “uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia” (II Pd 3.8). Assim, 2.000 anos de história é igual a tão somente dois dias para o Senhor. 

Quanto ao reino proclamado pelo Senhor, precisamos ter clara visão dele para não confundirmos com falsas apresentações dadas a este reino. Por reino se entende o domínio ou território cujos habitantes estão sujeitos a um governante. Alguém poderia proclamar o Brasil como sendo do Senhor Jesus, contudo nada apequena mais o reino de Deus do que restringi-lo a uma nação ou a qualquer extensão territorial deste planeta. Quando afirmamos que o reino de Deus está por se aproximar, sua escala de grandeza é digna do próprio Deus, razão porque lemos no livro do Apocalipse: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe” (Ap 21.1). Esta nova ordem também fora profetizada no Antigo Testamento: “Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas” (Is 65.17). Assim, o reino de Deus tem por extensão a totalidade do universo e contrasta com o atual porquanto será uma nova ordem completa e perfeitamente remida, cumprindo o propósito do Senhor em relação a esta era: “desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.9,10). Entre o mundo atual e o universo futuro teremos um interstício em que o Senhor Jesus reinará nesta terra (Ap 20.4), mantida as condições atuais para, ao final de mil anos, apresentar a Deus, o Pai, este planeta restaurado às mesmas condições do Jardim do Éden, ainda que venha a ser destruído ao final (Ap 20.9), promovendo com isso uma completa ruptura entre mundo e a nova ordem remida, transformada e eterna (Ap 21.1).

O Senhor Jesus, em Seus ensino, levava em conta o contraste entre esta era e a vindoura, como podemos ler em Sua exposição acerca da blasfêmia contra o Espírito Santo. Disse Jesus: “Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á isso perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir” (Mt 12.32). Em outro lugar o Senhor associa o mundo do porvir com a vida eterna, como podemos ler na resposta dada aos Seus discípulos: “... no mundo por vir, a vida eterna” (Mc 10.30). Por inferência podemos deduzir que este mundo do porvir se estende por uma dimensão de tempo sem fim, que se traduz no conceito de eternidade. Adentrar nesta era está associado com o evento da ressurreição, como podemos ler: “os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos não casam, nem se dão em casamento” (Lc 20.35), portanto o entrar no reino de Deus não é reservado a todos, mas tão somente aqueles que preenchem os requisitos divinos. É para estes que o Senhor virá (Mt 24.30) dando ordens para recolher os remidos como está escrito: “E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus”(Mt 24.31). Em outro lugar o Senhor ainda foi mais específico: 

"Mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes. Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça." (Mt 13.41-43)

Este evento, misto de juízo e redenção, terá dimensão mundial com implicações, inclusive, nos céus. Nós não podemos apequenar esta dimensão universal do reino de Deus, caso contrário vamos querer conceber utopias localizadas, achando que é possível remir o capitalismo, ou o socialismo, ou o comunismo, ou alguma outra forma de governo com o propósito de implantar ainda nesta era pequenos oásis de prosperidades, pensando que estamos implantando o reino de Deus. Pelo contrário, o advento do reino de Deus em sua realidade última é um empreendimento que somente o próprio Deus pode gerar. George Eldon Ladd, na obra “Teologia do Novo Testamento”, descreve o contraste entre o reino de Deus e a era atual nos seguintes termos:

“Em resumo, esta era presente, que abrange o período desde a criação até o Dia do Senhor, a qual, nos Evangelhos, é designada em termos da paurousia de Cristo, ressurreição e julgamento, é a era da existência humana em fraqueza e mortalidade, do mal, do pecado e da morte. A Era Vindoura será a realização de tudo aquilo que o Reino de Deus significa, e será a era da ressurreição para a vida eterna no Reino de Deus. Tudo nos Evangelhos, aponta para a ideia de que a vida sobre a face da terra – mas só que uma vida transformada pelo domínio real de Deus quando o seu povo principiar a desfrutar as bênçãos divinas em toda a sua plenitude (Mt 19.28).

Quando temos a real dimensão do reino de Deus somos levados a considerar a obra de Deus nesta era na sua perspectiva correta, pois enquanto estivermos lidando com a fraqueza, o mal, o pecado e a morte, ainda vivemos neste presente século mal. Qualquer tentativa de transformar esta presente era em um reino de justiça e paz nada mais é que uma utopia, um ambiente perfeito impossível de ser alcançado. Sob esta perspectiva podemos perceber que a proposta da teologia da prosperidade concorre contra a manifestação do reino de Deus, porquanto pretende instaurar nesta era algo similar ao reino milenar sem Cristo assentado no trono. Seria como propor que o Senhor Jesus mantivesse o milagre da multiplicação dos pães como uma realidade permanente. Ocorre que naquela época, depois de repetir o milagre duas vezes, vendo que o povo o buscava, Jesus revelou a verdadeira intenção daquela multidão ao declarar:

Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo. (Jo 6.26,27)

Nós precisamos discernir corretamente a verdadeira proposta do reino de Deus para não confundi-la como algo que se manifesta por aquisição de riquezas terrenas, ainda que alguns pregadores possam querer  justificar esta doutrina sob o argumento que Deus é o dono do ouro e da prata. Se por um lado Deus o é por conta de ter criado todas as coisas, por outro, Jesus fez clara distinção entre os governos humanos e o reino de Deus ao colocar diante de todos os olhos uma simples moeda, perguntando e, em seguida fazendo uma observação: “De quem é esta efígie e inscrição? Responderam: De César. Então, lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22.20,21). Alguém pode se perguntar: se o reino de Deus não objetiva transformar as estruturas sociais, econômicas e políticas, qual e o objetivo deste reino nos dias atuais? Podemos responder com leitura da missão dada pelo Senhor Jesus Cristo a Pedro: “Não temas; doravante serás pescador de homens” (Lc 5.10). Esta também é nossa missão porquanto após a ressurreição, antes de ascender aos céus, Jesus disse: 

“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. (Mt 28.18-20)