Diminuir a fonteAumentar a fonte 03/07/2014
A consciência humana
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

“Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se, no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho.” (Rm 2.14-16)

Gentio, na Bíblia, corresponde a todos os povos que não sejam judeus, portanto estamos nos referindo aos povos ocidentais, chineses, japoneses, coreanos, russos, árabes, africanos, dentre outros. Neste rol de povos encontramos religiosos, ateus, democratas, ditadores, terroristas, gente do bem, indivíduos de má índole, todo tipo de gente. Encontramos gente com quem conversamos, outras que nunca ouvimos falar, aquelas que apreciamos, também os que temos preconceitos. Enfim, toda a humanidade, desde que não seja judeu. Diante de um rol de povos tão grande é notável a afirmação do apóstolo Paulo: todo indivíduo tem uma consciência, mesmo aqueles que são destituídos de quaisquer resquícios de bondade e humanidade. Para compreendermos o papel da consciência, precisamos nos recordar de como fomos criados.

Nós fomos criados por Deus como podemos ler: “formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2.7). Note que fomos criados como um ser tripartite: fomos formados do pó da terra (representação de nosso corpo) e adquirimos o fôlego  de vida (metáfora que expressa nossa alma) por causa do sopro de Deus (de onde se infere a criação do espírito humano, visto ser Deus Espírito (Jo 4.24)). Esta natureza tríplice é reafirmada no Novo Testamento: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (I Ts 5.23). Por outro lado temos de considerar que, na Bíblia muitas vezes o termo “alma” e “espírito” se confundem como sinônimo um do outro, visto que ambos são imateriais. Assim, só conseguimos distinguir um do outro por meio da palavra de Deus, porquanto somente ela é capaz de fazer esta separação como podemos ler: “... a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito... ” (Hb 4.12), É interessante notar que o corpo pode ser dividido em três partes básicas: cabeça, tronco e membros. Também podemos dividir a alma em três compartimentos: mente, vontade e emoções. Do mesmo modo o espírito: identificação, intuição e consciência. Podemos inferir estas divisões da alma e do espírito por meio de alguns versículos bíblicos. Quanto as divisões da alma, a mente opera mediante o intelecto, pensamentos, raciocínios e memória: “Minha alma, continuamente, os recorda e se abate dentro de mim” (Lm 3.20). Na vontade se realizam as escolhas e tomadas de decisões: “pelo que a minha alma escolheria, antes, ser estrangulada; antes, a morte do que esta tortura” (Jó 7.15). Por meio das emoções se processam os sentimentos: “e Jônatas o amou como à sua própria alma” (I Sm 18.1).

Em relação às divisões do espírito, podemos qualificar uma de suas partes por identificação em razão da união indissolúvel do Espírito de Deus com o espírito humano como podemos ler: “aquele que se une ao Senhor, é um espírito com ele” (I Co 6.17). Esta união ocorre por meio do novo nascimento, instante este em que o Espírito de Deus vem habitar no ser humano (Jo 14.17). Deste modo a identificação corresponde ao âmago do ser, a parte mais íntima e particular do espírito, local da própria habitação do Espírito de Deus. Na outra divisão, a intuição, se processa o que vem da parte de Deus em forma de revelação ou iluminação como podemos ler: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16) e, em outro lugar: “Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus” (I Co 2.10). O que o Espírito de Deus transmite ao nosso espírito são insights revestidos de mistérios. Para compreendermos melhor como se processa a intuição consideremos o falar em línguas estranhas. Paulo ensina que a verbalização da língua estranha produz uma série de sentenças envoltas em mistérios porquanto é incompreensível à mente natural (I Co 14.2). Ele reforça este entendimento ao escrever: “se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera” (I Co 14.14). Do mesmo modo que acontece no âmbito da verbalização das línguas estranhas, ocorre na esfera do espírito humano, pois a mente não consegue apreender o que vem da intuição, razão porque as impressões depositadas no espírito humano precisam passar por um processo de interpretação (I Co 14.5).

Por fim temos a consciência, que é o órgão do discernimento, capaz de distinguir o certo do errado mediante um julgamento espontâneo e direto. Paulo reforça esta capacidade da consciência ao testemunhar: “Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência” (Rm 9.1). A consciência é a única parte do espírito humano que temos governabilidade, pois tanto a identificação quanto a intuição se processam fora da esfera da compreensão cognitiva. O alvo divino para a consciência é que ela amadureça como podemos ler: “o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 5.14). A atuação da consciência nas emissões de juízos de valores nos faz lembrar-nos da arvore do conhecimento do bem e do mal encontrada no jardim do Éden (Gn 2.17). Para entendermos o porquê desta associação leiamos a ordem divina: “da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). Se observarmos atentamente esta ordem veremos a sua execução exige o uso do atributo da consciência em discernir a escolha certa, pois se escolhêssemos obedecer, então nossa consciência seria guiada pela palavra de Deus, se recusássemos ela haveria de perder a conexão com Deus, o que resultaria em morte. Podemos nos perguntar: por que Deus colocou nossa consciência nesta prova tão vital? Que papel exerceria a consciência na ordem divina?

Para compreendermos melhor este papel, examinemos antes o maligno argumento que levou o homem à rebelião contra Deus: “Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.5). Observe que a proposta da serpente também exige discernir uma escolha entre duas alternativas, portanto necessário se faz o uso da consciência. Qual o problema desta proposição maligna em vista da anterior ordem divina sobre a consciência? Juntemos as duas ordens na sua sequência. Deus disse: em obedecer, vida, em desobedecer, morte. Como a serpente negou enfaticamente que a desobediência não traria morte (Gn 3.4), a serpente abriu outra possibilidade, que ligada a sequência divina temos: se obedecer, vida, em desobedecendo, tem-se a opção do bem ou do mal. A segunda opção foi ampliada em duas alternativas porque a serpente negou a morte como opção. Basicamente a serpente não contradisse a Deus, o que ela fez foi colocar-se como produtora de luz no âmbito das trevas, assumindo a tirania do reino das trevas. Se nos reportarmos à ordem divina, perceberemos que não importa qual escolha seja feita no âmbito da morte, seja o bem ou o mal, tudo dá na mesma: gera morte. Paulo resumiu as opões da serpente nos seguintes termos: “... o salário do pecado é a morte...” (Rm 6.23).

Voltemos agora a afirmação de Paulo que os gentios têm consciência. Todo e qualquer indivíduo que faça juízo de valores, optando entre o que julga o que para ele é certo ou errado está exercendo a prerrogativa de sua consciência. Originalmente ele tinha só uma opção que lhe habilitaria viver, seria o de obedecer continuamente a Deus e jamais comer do fruto da árvore proibida. Como ele comeu, desobedecendo a ordem de Deus, desde este dia em diante ele entrou na esfera do reino da morte. Ele continua exercendo sua consciência, fazendo escolhas do bem ou do mal, contudo, não importa qual escolha esteja fazendo, continua morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1). Tudo que a consciência processa nesta instância não consegue se libertar da esfera da morte a não ser que nasça de novo, quando lhe é dado um novo espírito, restaurando a consciência a sua posição original. Contudo mesmo que este novo nascimento não se processe, ainda assim a consciência está agindo dentro de sua atribuição, que é agir como um tribunal residente dentro do indivíduo, acusando-o ou defendendo-o. E, quando o juízo final se instaurar, a pessoa será responsabilizada por tudo quanto fez ou deixou de fazer, pensou, ou deixou de pensar, porquanto haverá o dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, haverá de julgar os segredos dos homens (Rm 2.14-16).