Diminuir a fonteAumentar a fonte 04/07/2014
O espírito deste mundo e o sofrimento
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

“Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno.” (I Jo 5.19)

O sofrimento é uma das maiores incógnitas deste mundo e a crença em espíritos malignos tem sido revestida de ceticismo, principalmente neste mundo cada vez mais racionalista, contudo tanto uma realidade quanto a outra estão umbilicalmente ligadas, se reforçando mutualmente. Para que possamos compreender estas questões, precisamos ter uma melhor visão acerca de quem é Deus. Para explicar a deidade, o salmista escreveu em certo lugar: “Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus” (Sl 90.2). Este texto nada mais faz do que expressar por suas próprias palavras o primeiro verso da Bíblia: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). O que podemos inferir de ambos os textos é que Deus nunca teve início, como também jamais terá fim, Sua existência transcende à criação. Outro aspecto a ser considerado é que só existe um único Deus, como podemos ler: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4). Este Deus, que existia antes de todas as coisas, no recôndito do Seu ser, determinou-se trazer a existência o universo, tantos as coisas visíveis, quanto invisíveis (Cl 1.16).

Ao optar por criar o universo, Deus estabeleceu a Si mesmo uma única restrição: Ele não poderia recriar a Si mesmo, não poderia trazer a existência outro Deus. Com isso queremos também dizer que a criação não é uma emanação divina. Se tudo deixasse de existir, Deus não seria afetado, em trazendo a existência, Deus nada de Si mesmo extraiu. Se Deus não podia recriar a Si mesmo, então todas as coisas criadas teriam de ser possuidoras de livre arbítrio, livres para, inclusive, rebelar-se contra Deus. Alguém pode perguntar: quando Deus cria algo, não o faz com perfeição? A resposta é sim, o faz. Agora precisamos qualificar esta perfeição. Como um dos atributos divinos é o da imutabilidade, atributo este que Deus não pode compartilhar sob o risco de produzir outro Deus, precisamos redefinir perfeição. O salmista colocou a perfeição nos seguintes termos: “Tenho visto que toda perfeição tem seu limite...” (Sl 119.96), isto porque nela tudo é completo, nada podendo ser acrescentado ou retirado. Ao criar, o que na realidade Deus fez foi trazer à existência a coisa criada perfeitamente habilitada para alcançar seu propósito eterno. Com este conceito estamos dizendo que a rebelião foi uma realidade levada em conta no ato da criação, como também o foi a redenção e restauração de todas as coisas. Como podemos saber que foi esta a intenção divina? Pelo fato do Cordeiro ter sido imolado desde a fundação do mundo (Ap 13.8), isto é, desde o instante em que o átomo primordial foi trazido a existência. 

Quando declaramos que Deus criou todas as coisas perfeitamente habilitadas para alcançar ao fim a que se destina, não estamos pressupondo que a rebelião será uniformemente debelada, vindo todos a ser restaurados.  E por que não? Porque no curso da historia do universo facetas divinas vão sendo reveladas à criatura à medida que atitudes são adotadas por Deus, tais como: Criador, Provedor, Juiz, Redentor, dentre outras. Paulo colocou esta verdade com as seguintes palavras: “Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?” (Rm 9.21). Um exemplo deste tipo de escolha é que nenhum anjo rebelado tem direito a redenção, o homem caído pode escolher entre a perdição eterna ou a salvação pela graça mediante a fé. Podemos questionar esta decisão divina, se o fizermos teríamos de responder à pergunta do apóstolo Paulo acima exposto.

Não sabemos a quais provas foram os anjos submetidos após serem criados para darem provas de sua voluntária lealdade a Deus, quanto ao homem, o Senhor determinou o fim último de suas escolhas ao impor-lhe a seguinte ordem: “da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). Ao impor a pena de morte, Deus estava agindo como Soberano sobre a coisa criada, ao executar a sentença como Juiz, em dar oportunidade para o indivíduo reconsiderar seu estado lastimável, como Redentor. Considerando esta ordem podemos compreender o que declarou Deus pelo profeta Isaías: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” (Is 45.7). Ele cria as trevas e o mal no sentido que delimitou o juízo para a escolha humana por dar-lhe livre arbítrio, contudo na ordem vemos que este mal foi criado no sentido em que a pena para sua escolha foi antecipadamente anunciada, o que nos faz incorrer no senso de responsabilidade pela escolha feita. Ao declarar-se criador do mal, Deus está dizendo que tem plena soberania sobre o universo, inclusive para punir o mal, porquanto se assim não fizesse o mal seria, em si mesmo, uma divindade fora do controle divino.

Tanto os anjos quanto os homens foram criados perfeitos (perfeitamente habilitados para o destino que lhes é conferidos). Quanto aos anjos, acerca de Lúcifer, o primeiro criado: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniquidade em ti” (Ez 28.15). Em relação aos homens: “Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7.29). Diante da rebelião dos anjos, Deus emitiu o juízo como podemos ler: “Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo” (Is 14.15) e definiu o local de sua execução: “o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41). Para este mesmo local irá todos os homens que não forem redimidos: “se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo” (Ap 20.15).

Uma vez estabelecido a soberania de Deus sobre todas as Suas criaturas como Criador, Provedor, Juiz e Redentor e compreendido que Deus deu às Suas criaturas o livre arbítrio com capacidade para, inclusive, rebelar-se contra Deus, em que pese o fato que todos que optarem por esta nefasta escolha serão julgados e condenados ao fogo eterno, podemos compreender a natureza do sofrimento. Jesus fez uma notável declaração: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10). Nesta palavra dita pelo Senhor está delineado o agir de Satanás e o propósito divino. O mal procede do diabo, o bem vem de Deus, conforme podemos ler: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). E, em outro lugar: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13).

Se o mal não procede de Deus, ele recebe toda sua carga de influência negativa da parte de Satanás, razão porque Paulo escreveu que a humanidade perdida anda “segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2), pois Satanás é o deus deste século (I Co 4.4). Ele tem sob seu comando principados, potestades, dominadores deste mundo tenebroso e hostes espirituais do mal (Ef 6.12). Esta força malignamente organizada objetiva contrapor a redenção divina, porquanto ele tem consciência do juízo que lhe foi imposto, como podemos inferir do grito de terror proferido por um demônio: “Que temos nós contigo, ó Filho de Deus! Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?” (Mt 8.29). O certo é que Satanás não respeita nenhum ser vivente para alcançar seus malignos propósitos, mesmo o Senhor, o Filho de Deus, foi tentado por Satanás. A Ele foi oferecido todos os reinos deste mundo (Mt 4.8), demonstrando que realmente este mundo jaz no Maligno (I Jo 5.19).

Se Satanás influencia a humanidade para o mal, o sofrimento não decorre por ele ter algum poder especial para executar seus intentos. Para entendermos o sofrimento precisamos considerar a Soberania divina. Deus havia dito que em comendo da árvore proibida o homem haveria de morrer (Gn 2.17). Adão comeu e não morreu imediatamente (Gn 3.7), todavia o salário do pecado é a morte (Rm 6.23). Por que Deus não executou a sentença imediatamente? Porque Deus tinha em vista a redenção, pois o Cordeiro foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). Se Deus não executou a sentença, o que Ele estava a fazer? Liberando Sua misericórdia, porquanto “não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (II Pd 3.9). O sofrimento decorre do mal perpetrado pelo maligno, todavia enquanto ele está acontecendo, Deus está permitindo que o tempo seja esticado para que se processe a redenção. Como o máximo que o sofrimento pode fazer é levar à morte, nosso problema não se constitui no sofrimento em si, mas na convicção que podemos ter que seremos salvos, pois “Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida” (I Jo 5.12). Se temos o Filho como nosso único e suficiente Senhor e Salvador, então não temos no sofrimento senão a mais absoluta certeza que seremos salvos, pois “se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17).