Diminuir a fonteAumentar a fonte 05/07/2014
A importância da boa e limpa consciência
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

“mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé.” (I Tm 1.19)
“conservando o mistério da fé com a consciência limpa.” (I Tm 3.9)

Paulo instruiu Timóteo a fazer conexão entre amor, consciência e fé (I Tm 1.5), porquanto se seu filho na fé viesse a ignorar a relação existente entre estes três requisitos haveria de se perder em um emaranhado, confuso e fragmentado conhecimento bíblico caracterizado pela superficialidade e incoerência. Em especial, a conexão entre a consciência e a fé foi considerada tão importante pelo apóstolo que ele chamou esta ligação entre ambos como resultante do “bom combate” travado pelo crente (I Tm 1.18). Como a consciência é um dos compartimentos do coração, podemos inferir que este combate é travado no mais íntimo e profundo do ser, razão porque para muitos esta batalha passa quase despercebida. Aliás, estes consideram o próprio coração, em si, um grande mistério. Nós somos seres tripartites, isto, é, somos um espírito que tem alma e habita em um corpo, posto que na morte, o espírito volta a Deus e o corpo à terra (Ec 12.7), de sorte que a alma é a interconexão entre o espírito e o corpo. Assim como o corpo é formado basicamente por cabeça, tronco e membro, o espírito e a alma também se dividem em três compartimentos, sendo o espírito composto por identidade (lugar da habitação do Espírito Santo), intuição (instrumento que recebe as revelações divinas) e a consciência. A alma, por sua vez, se divide em mente, vontade e emoções.

Tendo em perspectiva estas divisões do ser, ainda que só possam ser distinguidas com exatidão uma da outra mediante a palavra de Deus (Hb 12.4), podemos compreender em que se constitui o coração. Este é formado pela consciência, um dos compartimentos do espírito humano, mais a alma, o que inclui, portanto, a mente, a vontade e as emoções. Tendo este entendimento se consegue perceber a importância da consciência, visto se constituir ela na porta do espírito humano, no ponto de contato entre as intuições advindas do Espírito de Deus com a alma. Deste modo podemos dizer que ao Jesus bater na porta para entrar, conforme o verso 20 do capítulo 3 do livro do Apocalipse, significa que o Senhor está em Espírito habitando no mais recôndito do espírito humano (I Co 6.17), batendo à porta da consciência (Ap 3.20) para que esta comunique Suas revelações à alma, isto é, à mente, à vontade e às emoções do crente. Se a consciência abrir a porta do coração, a alma passa a se constituir na própria casa do indivíduo (Ap 3.20) onde Deus pode ter comunhão por meio do culto racional (Ap 12.1,2) com esta pessoa, visto ter ela dado acesso ao Senhor à sua alma. Podemos esquematizar linearmente este conceito com a seguinte notação matemática: espírito humano [.identidade – intuição – (.consciência.)] <> [(.mente.) – vontade – emoções.] alma. Note como no centro desta equação a consciência e a mente interfaceiam uma na outra, intercambiando impressões que afetam diretamente a vontade e as emoções do crente. Quando o salmista expressava seu anseio nestas palavras: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.” (Sl 42.5) com esta declaração o salmista expressava seu maior anseio, que era ter na alma a mesma comunhão que seu espírito humano experimentava na união que tinha com o Senhor, que é Espírito (Jo 4.24).

Voltemos agora à conexão da consciência com a fé. Paulo faz-nos saber que o exercício da fé está direta e umbilicalmente ligado às condições da consciência do indivíduo. Sabendo que a consciência é a porta do espírito humano e que o Espírito Santo habita no compartimento do espírito humano a que denominamos identidade, a relação entre a fé e a consciência se torna explícita. Explicando, o autor aos Hebreus nos ensina que sem fé é impossível agradar a Deus. Ao fazer esta declaração este escritor nos apresenta em seguida a explicação porque a fé é fundamental no relacionamento com Deus. Escreve ele: “sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6). Consideremos as duas partes desta declaração com dois dos compartimentos do espírito humano e como isso se conecta com a consciência. A identidade é o local onde o Espírito de Deus habita no espírito humano, como é requisito da fé crer que Deus existe, a consciência precisa exercer este tipo de fé para discernir a presença de Deus no seu próprio espírito. Paulo faz uma pergunta direta para cada um de nós, cuja resposta só pode ser dada no âmbito da fé. Pergunta o apóstolo: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (I Co 3.16). A esta pergunta só temos como dar uma única resposta: pela fé eu creio, visto que nenhum sentido humano poderá distinguir de modo palpável que Deus está de fato habitando no recôndito de nosso espírito. Só que a fé faz mais que reconhecer a presença de Deus, ela também crê que Deus é galardoador, ou seja Aquele que premia ou recompensa o crente, Àquele que revela os mistérios de Deus, como podemos ler: 

“... como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus.” (I Co 2.9,10)

O Espírito Santo não só está a habitar em nosso espírito, como de continuo esta a nos revelar a vontade de Deus. Ocorre que esta revelação se dá por meio de uma linguagem incompreensível aos sentidos humanos. Para que esta linguagem seja revelada à alma, a consciência precisa estar sendo processada na atribuição que possuí, isto é, mediante o exercício da fé. Como sabemos que Deus é santo, nossa consciência precisa ser boa (I Tm 1.19) e limpa (I Tm 3.9). É neste contexto que Paulo declara haver necessidade da consciência combater para que consiga manifestar sua fé em Deus (I Tm 1.8). Em contraste a este ensino Paulo faz uma ressalva e uma acusação contra os falsos mestres da lei que que falam coisas sem conhecimentos de causa, ainda que pareça fazer “ousadas asseverações” (I Tm 1.7). O problema com estes mestres é que eles privilegiam a lei em detrimento da graça, graça esta que Paulo diz ter transbordado dentro de si, juntamente com a fé e o amor que há em Cristo Jesus (I Tm 1.14). Cabe-nos fazer as seguintes perguntas: Por que a consciência precisa combater para poder discernir e exercitar a fé? (I Tm 1.18). Qual seria a relação entre a consciência e a lei ou entre a consciência e a graça? Como a fé afeta a consciência diante da lei ou da graça?

A consciência humana tem a habilidade para discernir o certo do errado. Ocorre que ela pode atuar em um de dois níveis, sendo ambos irreconciliáveis um com o outro. Para compreender estes dois níveis, façamos a seguinte analogia, o primeiro representa o mar, o segundo a terra. No mar vivem os peixes, que respiram debaixo da água, na terra os animais que respiram sobre a superfície da terra. O peixe não consegue viver como um animal, nem o animal como o peixe, portanto a vida de um é completamente incompreensível para o outro. Como a consciência foi criada por Deus, este a colocou em um campo de prova por meio do qual ela aprenderia a andar em obediência a Deus. Se a consciência agisse em obediência estaria demonstrando por sua escolha amar a Deus, porquanto o Senhor Jesus fez a conexão entre a consciência e o amor ao declarar: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15). Este lugar de prova se passou no jardim do Éden, quando Deus proibira Adão de comer do fruto proibido (Gn 2.17). Neste nível a consciência só tinha duas opções: obedecer a palavra de Deus ou rebelar-se. Em rebelando-se ela seria sentenciada a morte. Ocorre que Satanás abriu um segundo nível irreconciliável com o primeiro. Ainda no jardim do Éden a serpente negou que a desobediência haveria de gerar a morte (Gn 3.4). Na proposta maligna da serpente, se o homem aceitasse estes termos, ele haveria de descobrir, no âmbito da desobediência, a diferença entre o bem e o mal. O problema é que quaisquer que fosse a escolha, ambas permanecem no campo da morte, porquanto para aceitar estes termos o homem teria de ter rejeitado a palavra de Deus. Assim, o segundo nível é irreconciliável com o primeiro porque este opera no nível restrito da morte, não importa a escolha que faça, enquanto que o primeiro nível, desde que em obediência, demonstra amor a Deus e confiança em Sua provisão.

Agora, observe, a ordem divina corresponde a lei de Deus, o problema é que desde a queda a lei divina tem como único objetivo revelar o pecado no homem como esta escrito: “... pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.20). É neste contexto que Paulo aponta o erro dos mestres da lei. Eles entendiam que a consciência devia ser exercitada em discernir o certo do errado, fazendo o que é bom e rejeitando o mal, que era a proposta da serpente. Como eles não compreendiam as implicações da queda humana, achavam que bastava o ato de vontade do indivíduo que ele poderia comportar-se como um santo homem de Deus. A resultante desta incompreensão é que quanto mais o indivíduo se esforça por ser santo, mais sua consciência o acusa, jogando-o em um ciclo degradante de culpa e impotência. Isto ocorre porque o homem natural está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1), tendo sido cegado pelo deus deste século, portanto incapaz de compreender o evangelho e a graça de Deus (I Co 4.4). A única condição de sair deste ciclo degradante é nascendo de novo, pois neste caso ao crente é dado um novo espírito e um novo coração (Ez 36.26), vindo o Espírito Santo a habitar no espirito humano (Ez 36.27). Com isso o cristão se torna liberto da angustiante decisão de ter de escolher o certo e o errado à luz da lei, porquanto por meio do corpo de Cristo ele agora é do Senhor Jesus Cristo (Rm 7.4). Assim sua consciência está apta desde o novo nascimento a ouvir a voz do bom Pastor e é por esta voz que ele escolhe obedecer a Deus (Jo 10.9). Tudo que ele precisa é manter sua consciência boa e limpa para poder discernir esta voz e andar em obediência à palavra de Deus. O combate se processa em razão do crente ter a tendência de agir como antes de sua conversão, no nível inferior, ao invés de tão somente obedecer a Deus, continua no exercício de definir por si mesmo o que é bom ou mal para si.