Diminuir a fonteAumentar a fonte 06/07/2014
A batalha da consciência
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

“Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom combate, mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé.” (I Tm 1.19)

Paulo exerceu sua autoridade apostólica para demonstrar a Timóteo que a graça de Deus é toda suficiente para salvar qualquer pecador, no mundo inteiro, independente de sua condição social, política ou econômica.  Ele instrui seu filho na fé que a lei se aplica tão somente aos transgressores e rebeldes, contrapondo aos ensinos dos falsos mestres que faziam uso da lei como instrumento de santificação da igreja em detrimento da graça de Deus. Paulo asseverou que a graça de Deus se constitui no poder salvador de Cristo. 

Ao posicionar Timóteo para lutar a favor da doutrina da graça de Deus, Paulo usou o termo “combate”, no grego – “strateo”, que significa “prestar serviço militar”. O apóstolo torna Timóteo ciente que o combate a favor desta doutrina equivale a uma operação de guerra, destacando a intensidade e seriedade desta luta. Com o uso da metáfora militar Paulo enfatiza que cultivar e ensinar uma vida espiritual centrada na graça exige a disciplina de uma expedição militar em formação de batalha, isto porque os inimigos da fé são adversários obstinados, dispostos a tudo para destruir a fé do cristão. Paulo ressaltou, contudo, que este é um bom combate porquanto a vitória advinda desta guerra resulta em benefícios eternos. 

Para entendermos a dimensão deste combate precisamos compreender a distinção entre as forças armadas e os civis. O soldado é um indivíduo que se alista nas fileiras das forças armadas de uma nação, sejam elas exército, marinha ou aeronáutica. Estas instituições têm por objetivo ser a força ofensiva e defensiva do país, colaborando na garantia dos poderes constitucionais e na defesa da lei e da ordem interna. O civil, em contraste com o militar, são os cidadãos não combatentes do país que devem ser protegidos pelas forças armadas. Se um cidadão se posicionar como civil em seu país, não perceberá risco algum para sua segurança, porquanto está protegido pelo exército, portanto para ele é incompreensível os exercícios militares. Quanto ao soldado, ao fazer seu alistamento, ele é severamente advertido de todas as implicações de sua escolha, enfatizando a necessidade de manter-se disciplinado nas práticas militares porque a qualquer momento poderá ser convocado para entrar em combate. É sob esta ótica que Paulo faz questão de enfatizar a Timóteo a importância das profecias das quais ele recebera pessoalmente. Com isso o apóstolo demonstra que um cristão que lê a palavra de Deus sem perceber um sentido real, pessoal e aplicado a sua própria circunstância existencial não está apto a fazer parte deste exército celestial.

É preciso enfatizar a aplicabilidade pessoal da palavra de Deus porque a fé se constitui na certeza que o indivíduo possui quanto ao evangelho de Jesus Cristo, certeza esta que advém do convencimento que o Espírito Santo realiza no seu interior acerca do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Este não pode ser um conhecimento superficial e genérico, do tipo que se ouve falar a respeito, mas na atuação da fé salvítica no indivíduo que resulta no crer em Jesus Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador. Esta fé salvítica justifica o crente, reconciliando-o com Deus, dando-lhe profunda paz interior. Esta fé gera no crente o novo nascimento, dando a ele um novo coração e um novo espírito, tornando-o na própria habitação do Espírito Santo. Esta fé integra a pessoa na igreja, que é o corpo de Cristo, tanto no âmbito invisível e universal, quanto também na comunidade local. Timóteo podia se considerar duplamente chamado, primeiro como crente em Jesus Cristo por experimentar todas estas realidades espirituais, como também por ter sido separado pela igreja para exercer um ministério específico que o habilitava a ensinar e pregar para a comunidade cristã, portanto sua responsabilidade era ainda maior. Ele não poderia alegar desconhecimento de causa, pois as mãos dos líderes cristãos foram postas pessoalmente sobre ele comissionando-o com o encargo de fazer este bom combate em favor da igreja. Cabia a ele mostrar-se fiel ao ministério que lhe fora dado, rechaçando todo tipo de negligência. Timóteo não podia esmorecer diante dos inimigos da fé.

O apóstolo Paulo deu instruções específicas de como Timóteo deveria manter-se em prontidão nas fileiras do exército celestial. Sobretudo Timóteo precisava guardar a fé e cuidar do bem estar de sua consciência. Para entender o papel da consciência e sua conexão com a fé, precisamos entender como se relaciona a alma com o espírito humano. Podemos esquematizar linearmente esta relação com a seguinte notação matemática: espírito humano [.identidade – intuição – (.consciência.)] <> [(.mente.) – vontade – emoções.] alma. Desta notação podemos delimitar a esfera do coração, que é formado pela consciência, um dos compartimentos do espírito humano, mais a alma, incluindo, portanto, a mente, a vontade e as emoções. Note como no centro desta equação a consciência e a mente interfaceiam uma na outra, intercambiando impressões que procedem do espírito humano e moldam diretamente a vontade e as emoções do crente. As impressões do espírito humano procedem dos compartimentos que denominamos identidade (lugar da habitação do Espírito Santo) e intuição (instrumento que recebe as revelações divinas).

Voltemos agora à conexão da consciência com a fé. Paulo faz-nos saber que o exercício da fé está direta e umbilicalmente ligado às condições da consciência do indivíduo (I Tm 1.19). Como a consciência é o único compartimento que o indivíduo tem governabilidade em seu espírito, sendo também a porta de entrada para ele, é por meio da consciência que o crente pode contemplar, como por espelho e por meio da fé, a glória de Deus (II Co 3.18), porquanto o Espírito Santo habita no compartimento do espírito humano o qual denominamos identidade (Jo 14.17). O Espírito Santo não só está a habitar em nosso espírito, como de continuo esta a nos revelar a vontade de Deus. Ocorre que esta revelação se dá por meio de uma linguagem incompreensível aos sentidos humanos. Para que o crente possa contemplar a glória de Deus e compreender esta linguagem que lhe é revelada no espírito, a consciência precisa exercer fé em Deus, pois “sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

A consciência precisa ser qualificada como boa porque seu papel é o nos expor ao Espírito Santo que habita em nosso coração, conduzindo nossa mente ao processo de renovação no conhecimento da vontade de Deus, transformando nossa vontade e emoções de forma que podemos experimentar esta boa, agradável e perfeita vontade divina em nossa conduta diária (Rm 12.2). Quando assim procedemos nosso coração permanece puro e íntegro diante de Deus (II Tm 2.22). O problema é que nossa consciência viveu por todo o tempo anterior à nossa conversão sob intenso ataque do inimigo de nossa alma que, mesmo após nossa conversão ainda permanece nos acusando dia e noite diante de Deus (Ap 12.10). Sob o escrutínio de Satanás, nossa consciência foi exercitada durante toda sua existência fora da presença de Deus a decidir-se entre o bem e o mal à luz da lei de Deus, contudo sem o poder de fazer o bem (Rm 7.19), porquanto estava vendida a escravidão do pecado (Rm 7.14). Por causa desta escravidão, o pecado tinha condição de prevalecer-se sobre a lei de Deus e, pelo mesmo mandamento, enganar e matar o indivíduo, razão porque o produto de suas escolhas lhes deixava frustrado. (Rm 7.11). Paulo, expondo esta impotência, colocou-a com as seguintes palavras: “Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto” (Rm 7.15). Neste ambiente de escravidão, a consciência exercia o papel de um tirano cruel, acusando a alma e fazendo-a sentir-se culpada por não conseguir atender ao padrão divino. Por outro lado, quando a consciência se voltava para o interior do espírito humano, o fazia revestida de orgulho por produzir um falso senso de justiça própria, fazendo orações como a do fariseu: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano” (Lc 18.11). Alternando entre a tirania da acusação ou no orgulho da exaltação própria, a consciência do homem caído se qualificava como má por natureza, incapaz de compreender a vontade de Deus.

Paulo exortou Timóteo a firmar-se na palavra de Deus como meio de vencer este bom combate por manter a fé e a boa consciência (I Tm 1.18), porque a graça de Deus mudou completamente esta realidade anterior ao novo nascimento. Primeiro, os pecados foram perdoados, cobertos e não são mais imputados ao crente (Rm 4.7,8), porquanto fomos justificados mediante a fé (Rm 5.1). Segundo, nosso velho homem foi crucificado juntamente com Jesus Cristo na cruz para que o corpo do pecado fosse destruído, e não sirvamos o pecado como escravos (Rm 6.6), mas andemos em novidade de vida (Rm 6.4). Terceiro, fomos libertos da lei de Deus para sermos de Jesus Cristo com o propósito de frutificarmos para Deus (Rm 7.4), portanto a lei de Deus não tem mais domínio sobre nós porque agora cultivamos um relacionamento pessoal e íntimo com Deus mediado por Jesus Cristo e comunicado ao nosso espírito humano pelo Espírito Santo. Assim, nossa consciência não tem mais que ficar decidindo entre o bem e o mal, proposta advinda da serpente (Gn 3.5), mas se colocar em adoração diante de Deus em espírito para se deixar transformar pelo Espírito Santo e pela palavra de Deus (II Co 3.18). Este é o bom combate, manter-se na presença de Deus e deixar-se transformar por ele, neste bom combate nossa boa consciência tem papel fundamental.