Diminuir a fonteAumentar a fonte 08/07/2014
O tamanho da fé
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe. Então, disseram os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé. (Respondeu-lhes o Senhor: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar; e ela vos obedecerá. (Lc 17.4-6)

Certa feita o Senhor instruía Seus discípulos acerca da necessidade de perdoar o irmão sete vezes por dia. Compreendendo que conferir o perdão a um irmão como estilo de vida exigiria mais que boa vontade, antes o suporte do poder de Deus, os discípulos rogaram ao Senhor: “aumenta-nos a fé” (Lc 17.5). Ao que o Senhor respondeu: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar; e ela vos obedecerá” (Lc 17.6). Para que os discípulos entendessem esta estranha resposta, Jesus contou-lhes uma parábola do servo ocupado em uma lavoura que, ao voltar para casa, recebe uma nova ordem do seu senhor, que é de servir-lhe uma ceia. Este, mesmo cansado o faz prontamente tudo que lhe fora ordenado e, depois de feito, ainda diz de si mesmo: “... Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17.10).

Geralmente procuramos compreender a analogia da fé com o grão de mostarda como sendo uma resposta direta ao modo como se aumenta a fé. Pensamos assim: não importa o tamanho de minha fé, ainda que ela seja pequena é suficiente para remover uma montanha. Contudo precisamos observar um detalhe: uma semente só é útil se for plantada e, neste caso, a semente de mostarda é tipificada como a menor de todas as sementes, mas uma vez plantada resulta na maior de todas as árvores (Mt 13.32). Quem é capaz de dizer o necessário para uma semente germinar e produzir esta grande árvore? Nesta metáfora temos a primeira lição: o exercício da fé não depende do que intentamos fazer, mas no poder de Deus que se coloca em ação à partir da fé exercida. Quando compreendemos que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11.6), uma vez que Ele foi pessoalmente inserido no contexto em que a fé foi acionada, o mais Ele o fará, quem pediu não precisa mais se preocupar com o resultado.

Ocorre que não é para o grão de mostarda que deve voltar nossa atenção, pois não é um dom posto em nós que precisa crescer, mas a visão que temos de quem Deus é. Consideremos novamente a frase toda: a pequena fé é capaz de mover um monte de lugar. Digamos que nós estejamos diante do monte Everest, o mais alto da terra. Se tivéssemos certeza absoluta que nossa fé é grande o suficiente para mover esta montanha e lança-la ao mar, poderíamos fazer? Pode ser que estivéssemos passando ao lado desta montanha, um homem ateu colocou em dúvida nosso relacionamento com Deus, temos certeza do poder que nos foi conferido, basta remover a montanha e este ateu ficará deveras impressionado. Ademais, se nossa fé é poderosa para remover a montanha, pode trazer ela de volta, assim o poder é demonstrado e os ambientalistas não terão nada a reclamar. Poderíamos fazer? É neste contexto que o Senhor conta a parábola do servo fiel.

Antes de retornar a esta parábola, outro dia Jesus estava andando com seus discípulos quando, no caminho, amaldiçoou uma figueira. No dia seguinte os apóstolos viram a figueira seca desde a raiz e lembraram ao Senhor da maldição fora proferida, ao que Ele lhes respondeu: “... Tende fé em Deus; (Mc 11.22). A fé que os discípulos queriam aumentar é fé em Deus e quem Deus é? Ele é o criador dos céus e da terra (Gn 1.1), sustentador e provedor de tudo quanto foi criado (Hb 1.3) e soberano regente de todo o universo (Gn 1.11). Nada uno universo acontece sem Sua ordem, portanto quem exerce fé em Deus declara implicitamente que é totalmente submisso a Ele, é servo de Deus. Na parábola contada por Jesus, o servo tinha uma incumbência: cuidar da lavoura, ao final do dia foi-lhe acrescentada outra: servir seu senhor. Seja uma ou outra tarefa, o servo não poderia fazer nada além daquilo que lhe é ordenado. Então se pergunte: como alguém poderia por sua própria deliberação mover o monte Everest do lugar, ainda que tivesse todas as justificativas para executar a proeza de exercer sua fé? O que aconteceria se todos os cristãos saíssem movendo os elementos da natureza de lugar? Por certo transformaria este mundo em um caos e seriam considerados rebelados contra Deus por agir nos domínios divinos sem que lhe fosse dado autorização. O que o Senhor Jesus estava a ensinar é que não há nenhum exercício de fé senão mediante ordens diretas de Deus, portanto quem quer aumento de fé precisa desenvolver relacionamento íntimo com o Senhor e prestar-lhe obediência absoluta. A fé é, na realidade, uma resposta de obediência a Deus àquilo que o próprio Deus comissionou a ser feito. A fé é a plena convicção que Deus autorizou fazer, portanto o crente age em absoluta confiança em Deus.

Acerca de um centurião Jesus disse: “Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta” (Mt 8.10). A fé deste homem é uma demonstração de como ela se fundamenta no conhecimento de Deus, não no dom que o individuo tenha recebido. Este centurião pediu para Jesus curar um criado seu, que estava acamado, era paralítico e sofria horrivelmente (Mt 8.5). Quando Jesus se dispôs a ir curá-lo, este centurião disse:

“Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado. Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, tenho soldados às minhas ordens e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz. (Mt 8.8,9)

Observe que Jesus elogiara a fé deste homem porque ela fora acionada com base na autoridade que Ele próprio, Jesus, tinha sobre todas as coisas, visto ser Ele o Filho de Deus, por meio de quem todas as coisas foram feitas (Jo 1.3). Podemos ilustrar esta fé da seguinte maneira: imagine você levando um doente no hospital de carro. Segue em alta velocidade pelas ruas, então é parado por um policial militar. Ao contar a ele o drama que você está vivendo, ele pede que você o siga. Ele entra no seu carro liga a sirene e vai abrindo o caminho. Você vem atrás dele, vê o sinaleiro vermelho, mas como ele passou a toda velocidade, você também o faz, pois está confiando que os outros carros vão parar por causa do ruído da sirene. Obviamente você só teve autoridade para dirigir quebrando todas as regras de trânsito por estar devidamente autorizado a proceder daquela maneira, visto a situação que se encontrava. Sua fé estava depositada na autoridade daquele policial militar, assim também aquele centurião não ficou a se perguntar como Jesus faria para curar seu servo, antes entendia que Jesus poderia fazer qualquer coisa que quisesse, se esta fosse a Sua vontade. Ao final do diálogo o Senhor disse ao centurião: “Vai-te, e seja feito conforme a tua fé. E, naquela mesma hora, o servo foi curado” (Mt 8.13).

Tudo quanto fazemos que envolve Deus precisa ser feito pelo critério da fé, pois sem fé é impossível agradar a Deus. Assim, quando o profeta Isaías recebeu da parte de Deus a comissão de ir até o rei Ezequias para anunciar que ele ia morrer, ele não tinha outra opção senão transmitir aquele recado. Isaías entregou a seguinte mensagem ao rei: “Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa, porque morrerás e não viverás” (II Rs 20.1). Ocorre que este rei voltou sua face para a parede e clamou a Deus por cura. Isaías não tinha chego às portas da cidade, dirigindo-se ao campo quando ouviu da parte de Deus uma ordem para voltar e declarar que o rei seria curado. Ele teve de voltar e declarou: “Assim diz o SENHOR, o Deus de Davi, teu pai: Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas; eis que eu te curarei; ao terceiro dia, subirás à Casa do SENHOR” (II Rs 20.5). Isaías podia vir a questionar a Deus, afinal, uma hora ele vai com a mensagem de morte, depois de vida, em ambas ele tinha de confiar que Deus executaria o que disse que faria. Esta mudança de perspectiva demonstra que exercer fé em Deus significa confiar plenamente na ordem recebida da parte do Senhor e agir em conformidade com esta ordem. A fé nasce na palavra de Deus e se realiza por meio dela.