Diminuir a fonteAumentar a fonte 10/07/2014
A boca e a fé
por Cezar Andrade Marques de Azevedo
www.cezarazevedo.com.br

“Porém que se diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos. Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” (Rm 10.8,9)

“E o terá consigo e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o SENHOR, seu Deus, a fim de guardar todas as palavras desta lei e estes estatutos, para os cumprir.” (Dt 17.19)

“E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17)

A palavra “coração” nos faz lembrar o grande mandamento da lei: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22.37). Para compreendermos este mandamento, bem como a condição em que a palavra está perto de nossa boca e coração, precisamos ter em mente o que é o coração nos termos bíblico e como ele se relaciona com nossa alma e espírito humano. Podemos esquematizar linearmente esta relação com a seguinte notação matemática: espírito humano [.identidade – intuição – (.consciência.)] <> [(.mente.) – vontade – emoções.] alma. Desta notação podemos delimitar a esfera do coração, que é formado pela consciência, um dos compartimentos do espírito humano, mais a alma, incluindo, portanto, a mente, a vontade e as emoções. Note como no centro desta equação a consciência e a mente interfaceiam uma na outra, intercambiando impressões que procedem do espírito humano e moldam diretamente a vontade e as emoções do crente. As impressões do espírito humano procedem dos compartimentos que denominamos identidade (lugar da habitação do Espírito Santo) e intuição (instrumento que recebe as revelações divinas). Como podemos perceber, o coração controla o âmago de nosso ser, ainda que não expresse nossa essência e identidade, pois estas se encontram na esfera do espírito. Nossa alma reflete nosso caráter e personalidade, definindo nossa individualidade. Nosso corpo, por sua vez, mostra nossa aparência, nos fazendo seres apto a relacionar um com o outro. Façamos uma suspenção desta reflexão espírito – coração – alma e consideremos antes a exortação de Moisés ao rei para este ler a palavra de Deus todos os dias de sua vida.

A palavra “ler”, no hebraico, transliterada por “qara”, identificada no léxico Strong com o número 7121, tem o significado de chamar, gritar, recitar, ler, proclamar, chorar, proferir um som alto, ler em voz alta, ler para si mesmo (http://www.studylight.org). Todas estas palavras apontam para a necessidade do rei fazer a leitura em voz alta da palavra de Deus todos os dias de sua vida. Surge então uma pergunta: por que a leitura teria de ser feita deste modo?

Antes de responder a pergunta, consideremos agora a palavra grega para “ouvir”, visto que a fé vem pela pregação ou pelo ouvir (Rm 10.17). A referência Strong no grego é 189, transliterada como “akoe”, definida como ouvir por via oral, órgão de audição, a coisa ouvida. Se observamos ambas as palavras, todas elas apontam para a necessidade de ouvir com nossos próprios ouvidos, seja em lendo em voz alta, seja ouvindo alguém proclamar o evangelho. Isso nos faz lembrar da seguinte passagem em Salmos: “Uma vez falou Deus, duas vezes ouvi isto: Que o poder pertence a Deus” (Sl 62.11). Note que Deus fala uma só vez, contudo temos de ouvir duas, como isso é possível? Se consideramos que temos nosso espírito humano e nossa alma, a primeira audição deve ser feito na esfera da alma, sendo esta imediata e natural, a segunda no âmbito do espírito humano, audição de natureza espiritual. Podemos considerar neste caso o coração como sinônimo da alma, visto que a única diferença entre um e outro é que ao coração se adiciona a consciência, que é uma das instância do espírito humano. Assim, quando o coração ouve, nossa alma está ouvindo também.

Agora vamos responder porque o rei precisava ler em voz alta a palavra de Deus. Sabemos que a Bíblia é a palavra de Deus, isto porque “nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (II Pd 1.21). Por outro lado sabemos também que o próprio Jesus Cristo é o Verbo feito carne (Jo 1.14), a própria palavra de Deus (Ap 19.13). Sabemos ainda que Cristo Jesus ressurreto enviou outro semelhante a Ele, o Espírito Santo, que habita (Jo 14.17) em nosso espírito (I Co 6.17).  Então temos o seguinte cenário: quando lemos a palavra de Deus, ela está diante de nossos olhos, fora de nosso corpo e, em espírito, o âmago do nosso ser, em nosso espírito humano, onde habita o Espírito de Deus. Paulo nos ensina que a palavra não está longe de nós, está na nossa boca e no nosso coração (Rm 10.8). Ela está em nosso coração porque a condição para o Espírito de Deus vir habitar em nós é o de ter-nos convencido do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Esta ação do Espírito de Deus nos habilitou em crer na palavra de Deus, ato este realizado pelo coração. A ação é profunda porque se cumpre a seguinte promessa de Deus: 

Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior. (Hb 8.10,11)

Note que a palavra de Deus está impressa em nossa mente e em nosso coração. A mente é uma instância da alma que tem a capacidade de refletir, ao citar o coração, temos implicitamente a menção da consciência, cujo objetivo é discernir a vontade de Deus. A aliança de Deus para conosco, portanto, nos leva a crer em Deus e experimentar Sua bendita vontade (Rm 12.2). Por outro lado entendamos o seguinte: a palavra de Deus está impressa em nossa mente e inscrita em nosso coração. Podemos entender esta impressão como um ambiente absolutamente favorável para o desenvolvimento da fé. Nossa mente e nosso coração é como um jardim fértil, toda semente da palavra de Deus plantada, haverá de frutificar. Não percamos de vista o cenário: a mente e o coração estão entre o Espírito de Deus que habita em nosso espírito humano e a palavra de Deus que está sendo lida por nossos olhos. O que nos é ensinado é que, se lermos a Bíblia na dependência do Espírito Santo, a promessa de Deus que está sendo lida haverá de prosperar em nosso coração, gerando fé, isto é, uma semente frutífera.

Agora, tentemos entender porque a necessidade de ler. A mente é um órgão da alma com capacidade de pensar e refletir, contudo por ser órgão da alma, a mente é um órgão natural que precisa ser exercitado espiritualmente. Por outro lado nosso espírito humano não tem como refletir tão somente com base na mente, porquanto a natureza de nosso espírito humano não se expressa por linguagem inteligível. Mesmo que nossa mente quisesse ouvir a voz do espírito humano na esfera mental, ainda assim seria um ato de interpretação, visto que a esfera do espírito humano, interagindo com o Espírito de Deus se manifestam em mistério ou intuição (I Co 14.2). Quando nós usamos nossa boca para pronunciar a palavra de Deus, nós fazemos duas coisas importantes: damos voz ao nosso espírito humano, pois estamos falando a palavra de Deus que estamos lendo, por outro lado estamos fazendo nossa alma capitaneada pela mente, que a palavra de Deus está sendo pronunciada. Como a palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4.12), o resultado desta operação é o desenvolvimento da fé.

Tentemos colocar isso de outro modo. O Espírito de Deus habitando em nosso espírito humano, quer nos transmitir a palavra de Deus. Então Ele nos constrange a ler a Bíblia, o que fazemos com nossos olhos, instrumento de nosso corpo. Se tão somente lermos com a mente, ainda que possamos estar refletindo sobre o que é dito, nosso espírito humano não está interagindo necessariamente, porquanto seu único instrumento de fazer-se ouvido é a voz que sai de nossa boca. Se nós, consciente que precisamos verbalizar a palavra de Deus conforme o ensino do apóstolo Paulo, vocalizamos o que estamos lendo, então o Espírito de Deus tem como fazer a palavra entrar por nosso ouvido, ser interpretado pela alma e,  pois enquanto a alma está ouvindo a palavra de Deus, nossa mente é obrigada a fazer soar no âmbito da alma a voz do pensamento. Neste processo o Espírito Santo tem como impregnar na mente humana que a palavra ouvida é a palavra de Deus, fechando o circuito. Assim a mente ouve duas vezes, a primeira naturalmente, a segunda por impressão do Espírito Santo no âmbito do pensamento. A fé é, então, acionada.

Alguém poderia perguntar: mas não é refletindo na palavra de Deus que a fé cresce? A resposta é sim e não. Primeiro é não porque o ato de refletir da mente é natural, não significa necessariamente que estamos pensando na dependência do Espírito Santo. Por outro lado quando simplesmente lemos a palavra de Deus, sem que isso implique necessariamente um ato de reflexão, o Espírito de Deus poderá acionar qualquer parte do texto lido e, por meio dele, causar forte impressão na nossa mente, fazendo a fé frutificar diretamente da palavra de Deus, sem que isso necessariamente opere a reflexão natural do ser humano. A este processo o Senhor Jesus o descreveu deste modo: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17), tendo como resultado o que Ele declarou aos discípulos: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3). Portanto, se queremos aumentar nossa fé, procuremos pois ler em voz alta a palavra de Deus na dependência do Espírito Santo.