Diminuir a fonteAumentar a fonte 19/06/2008
A censura da Eurocopa
por Rui Martins

www.cezar.azevedo.nom.br

Espetáculos de massa cleans, limpos, pré-censurados, numa antevisão do admirável mundo novo que está chegando. Assim é a transmissão das manifestações populares que precedem ou sucedem aos jogos de futebol da Eurocopa 08, na Suíça e Áustria.

Foi a imprensa quem revelou para muita gente surpresa serem as imagens censuradas pelos responsáveis da transmissão das imagens, segundo normas fixadas pela Uefa aos serviços da Eurovisão.

A idéia podia ser boa, sem segundas intenções, mas a transmissão pré-censurada dos jogos da Eurocopa pode ser uma simples antevisão dos telejornais do futuro no qual estamos entrando, pré-censurados, ao gosto de quem estiver no poder.

Vai em acelerado a colocação de câmeras que filmam o que se passa nas praças e ruas de muitas cidades inglesas. Praticamente, todos são filmados ao fazer compras em supermercados ou galerias. O mundo de amanhã de Aldoux Huxley e George Orwell não é mais antecipação.

Sem que possamos nos aperceber, esse mundo de pessoas vigiadas, controladas, seguidas, cadastradas, sem liberdade de viver uma vida não normalizada vai chegando sorrateiramente ao fim.

É incrível como a realidade alcançou a ficção. Aqueles conselhos ingênuos das mamães aos filhos, para não fazerem bobagens porque Deus vê tudo, mas que deixavam a impressão para os crédulos de serem seguidos e, sem poderem fazer bobagem nem escondidos no banheiro, estão se concretizando.

A informática toma o lugar do deus omniciente e omnipresente. A memória do computador pode armanezar imagens em número ilimitado. As conversas nos telefones celulares podem ser rastreadas muitos meses depois. Bem mais cedo do imaginado, a televisão também nos verá dentro de casas e o olho curioso e exigente do Big Brother nos verá noite e dia para nos dar ordens e verificar se seguimos a cartilha social fixada pelo sistema.

Porque não há dúvida, a tecnologia numérica e a informática se nos ajudam e facilitam a vida de um lado, do outro preparam o pesadelo de amanhã, quando provavelmente uma multinacional ou uma confraria assumirá o lugar dos antigos e ridículos ditadores, mas que podiam impor o terror e punir com a morte os transgressores.

Depois de termos sido seguidos e vistos todo o tempo por Deus, o sentimento de não haver segredo, causador de tanta paranóia, mas que não passava de uma ilusão criada pela religião para dominar os crédulos, não vamos escapar do Sistema, que nos dará um número ao nascer e que seguirá até a morte.

Belo e admirável mundo novo, cuja tecnologia nos tirará toda liberdade e nos dirá que música dançar ou gostar, que prato comer, em que candidato votar, quem amar e quem odiar. E, daqui a alguns anos, quando tudo for controlado, fichado, filtrado pelo Sistema, não se esqueça, muita coisa terá começado na Eurocopa 08, quando as imagens das câmeras nos estádios, nas ruas, no momento do gol, passavam antes pela censura de alguns olhos de pessoas incumbidas de evitarem brigas, fogos, acidentes, tudo enfim que não fosse clean, agradável, bonito, alegre.

Mais alguns anos e os próprios computadores serão so olhos selecionadores das imagens, mas que poderão ser, ao contrário, de guerras, de ódio, de lutas, de terror. Como será o admirável mundo novo ? Enfadonho como o céu prometido pelos crentes de todas as religiões ? Cruel, como o descrito por Orwell, com sua história refeita a cada dia e com implacável tortura para os inconformados ou não integrados ? Primário e minimalista, com um vocabulário diminuto, palavras de ordem ditadas pela publicidade, no qual a própria vida e o viver perderam o significado e a razão de ser ?

O primeiro sinal, que não é do Apocalipse e nem tem o número 666 da besta, está estampado também nos jornais com toda sua ferocidade – as grandes multinacionais, que sequer têm uma cabeça de homem, mas são seres sem forma e impessoais, querem lucro e mais lucro, mesmo que espalhem a fome pelo planeta, que o preço dos alimentos duplique e morram milhões. Elas são quase invisíveis como o deus de nossas infâncias, mas especulam e espalham a miséria e a morte com o valor das ações cotadas nas bolsas.

FONTE: http://www.diretodaredacao.com/ em 15/06/2008

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