Diminuir a fonteAumentar a fonte 12/10/2008
Sexta de pânico
por Miriam Leitão

www.cezar.azevedo.nom.br

Estamos no vértice de um evento que será lembrado nas próximas décadas, como a crise de 2008. Essa semana foi um espanto. De dias longos, de surpresas instantâneas, de quedas dramáticas nas bolsas. “Se não for o fim do mundo, melhora”, disse ontem Armínio Fraga. Para nós brasileiros que vivemos tantas crises, há um consolo: elas sempre terminam um dia. Esta ainda tem muito chão pela frente.

Esta crise não se parece com nenhuma outra, disse ontem Luiz Carlos Mendonça de Barros. Portanto, não serve para nada o mundo já ter a experiência de 1929.

— Todo o ganho de conhecimento não serve para nada, porque o mundo mudou radicalmente desde a última grande crise.

O presidente do Fed, Ben Bernanke, que estudou com afinco a crise de 29, parece impotente diante da de 2008. De lá para cá, tudo aconteceu: a globalização, a engenharia de um sem-número de criaturas financeiras, a integração jamais vista dos mercados e a explosão dos fluxos. Na sexta-feira do pânico, vivida ontem, fantasmas rondavam os mercados mundiais.

Alguns fantasmas são as neocriaturas. Ontem foram os US$ 400 bilhões dos seguros dos papéis do Lehman Brothers. Morto há quase um mês, o ectoplasma do Lehman voltou a assustar todo mundo que tinha investido no banco e feito seguro através do Credit Default Swaps (CDS). Outros fantasmas são mais conhecidos: os riscos de que a economia real seja afetada lá fora e aqui. Nos Estados Unidos, os riscos de falência de empresas da economia real.

Entre os vários fatos inéditos da semana está a decisão do Fed de dar liquidez aos commercial papers. Isso significa que o banco central americano está dando dinheiro para empresas diretamente, coisa que bancos centrais não fazem. Empresas de primeira linha não conseguiam descontar suas notas para pagar salário, ter capital de giro, coisas da vida de qualquer empresa. Se uma dessas quebrar porque os bancos pararam de emprestar, é a ligação direta entre Wall Street e Main Street, ou seja, das altas finanças à pessoa comum.

O Brasil estava acelerando o crescimento quando a crise se instalou nos países desenvolvidos. Mas, nesta semana, ela estacionou por aqui. Aqui na coluna, Leonardo Zanelli e eu falamos com várias empresas e setores. Os números agregados pouco contam da crise, mas os executivos já admitem que tudo está diferente agora. Antonio Pitta de Abreu, ouvido em Lisboa, me contou que a Energias do Brasil desistiu de participar de um leilão de energia, para daqui a cinco anos, no dia 30 de setembro, um dia depois da primeira segunda-feira horrorosa. Eles vão suspender, por hora, as decisões de investimento para ver como ficam as coisas.

— Mas o clima aqui na Europa está muito ruim. No Brasil não se sente isso. Aqui, as pessoas estão deprimidas — disse ele.

O economista-chefe do Sindicato das Financeiras do Rio de Janeiro e da Acrefi, Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento, Istvan Kasznar, contou que já foram fechadas lojas de financeiras no Rio, em São Paulo e Fortaleza. Já houve demissão de 7% da mão-de-obra terceirizada nesse setor. A inadimplência subiu apenas levemente. Houve corte nos prazos de financiamento, alta das taxas e o crédito ficou mais seletivo.

— A praça está em ebulição.

As empresas de eletrônicos estão planejando férias coletivas, duas montadoras já anunciaram. O setor de embalagens já está revendo para baixo o seu crescimento no ano. O setor de carnes está exportando, até setembro, 200 mil toneladas a menos do que no ano passado. O presidente da Abras, Sussumu Honda, disse que a crise ainda não chegou ao supermercado. Ele conta que as empresas estão esperando para ver em que patamar o dólar vai ficar, mas admite que terá impacto no preço ao consumidor.

— O Banco Central demorou muito para entrar e o dólar subiu demais.

Joseph Tutundjian, que além de especialista em comércio exterior é importador, acha que foi um absurdo o Banco Central demorar tanto para entrar no mercado.

— Ele destruiu a confiança no câmbio, que foi construída em anos de taxa flutuante. Podia subir ou cair, mas sempre em níveis normais. Subiu 50% e só então o Banco Central entrou. Agora, o exportador fica esperando subir mais para vender, e o importador esperando cair mais para comprar.

O presidente da Abinee, Humberto Barbato, confirma que isso afetou o setor.

— A nossa previsão era de um crescimento de 11% nas vendas e elas já estão em queda. Não temos parâmetro de preços, não podemos calcular o preço final. As lojas estão tentando adivinhar o preço do dólar. Algumas redes estão negociando, outras pararam de comprar — disse.

A Eletros divulgou nota dizendo que o dólar já impactou os custos de produção. O presidente da entidade, Lourival Kaçula, disse que a alta já está sendo repassada e, nos próximos dias, o repasse deve ser ampliado.

— Levou dois anos para o dólar cair de R$ 2 para R$ 1,60. Agora, subiu em 40 dias. Ninguém sabe o que vai acontecer.

Setembro foi o mês em que a crise escalou. Esta semana foi quando não restou dúvida alguma de que ela é global. Mesmo assim, para Armínio Fraga, houve fatos bons que não produziram muito efeito por causa do clima geral de ceticismo.

— A ação coordenada dos bancos centrais, por exemplo, é uma boa notícia — disse ele.

Espera-se que nas reuniões do fim de semana essa ação conjunta se intensifique. As crises nunca devem ser subestimadas; mas elas nunca duram para sempre. Até esta, tão sufocante, chegará ao fim, algum dia.

FONTE: http://oglobo.globo.com/economia/miriam/

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