Diminuir a fonteAumentar a fonte 15/10/2008
Bolsa: O gato morreu
por Fernando Canzian

www.cezar.azevedo.nom.br

WASHINGTON - Há pouco mais de seis meses ainda pairavam algumas dúvidas sobre o destino das Bolsas de Valores mundiais e da economia real. A crise já estava quase fazendo aniversário, mas não havia ganho ainda as dimensões atuais.

Na época, um novo corte na taxa de juro do Fed (o banco central dos EUA) para 2,25% ao ano fez as Bolsas saltarem. O comportamento do mercado cheirava ao que os operadores norte-americanos chamam de "dead cat bounce", ou o pulo do gato morto.

A expressão ilustra o momento em que o mercado acionário consegue a sua última recuperação antes de sucumbir de vez. É como se alguém jogasse um gato já morto de cima de um prédio. Ao cair no chão, o bicho dá um último pulo e cai novamente, morto como jazia desde o início.

Ao que parece, depois de muitos estertores, desfribiladores e injeções de adrenalina na economia norte-americana e mundial, o gato finalmente sucumbiu. Até prova em contrário, está morto.

O juro básico americano está hoje em 1,5% ao ano e medidas trilionárias foram tomadas nos últimos dias para ressuscitar o sistema financeiro. Não adiantou. Bola cantada, a crise de crédito já avançou sobre a economia real. O que a Bolsa faz agora é apenas "precificar" a recessão.

O Departamento de Comércio norte-americano divulgou que as vendas nos EUA recuaram 1,2% em setembro, na comparação com o ano anterior. Foi o terceiro mês de queda consecutiva no indicador, que veio com uma baixa duas vezes maior do que o esperado. No Estado de Nova York, o principal termômetro de vendas atingiu seu menor nível desde 2001.

Os mercados já vinham sentido o cheiro cada vez mais forte da recessão que se aproxima. Agora, desabam de vez. A queda e a paralisação da Bolsa no Brasil refletiu com contundência uma expectativa cada vez mais pessimista nos EUA.

Redes de pizzarias e fabricantes de automóveis, supermercados e redes de móveis, todos começam a acumular por aqui cada vez mais resultados negativos.

O Tesouro e o Fed estão totalmente cientes da gravidade da situação. Tanto que detalhes do encontro com os banqueiros que terão participações de seus bancos compradas pelo governo revelam que eles não tiveram outra opção. Foi goela abaixo.

O Tesouro obrigou mesmo os que eram contra a estatizar parte significativa do negócio como forma de injetar não apenas dinheiro, mas confiança em uma economia que aponta cada vez mais para baixo.

Mais uma vez, o mantra dessa crise: ela é uma crise de crédito, de falta de crédito para bancos e consumidores que carregam endividamentos recordes. Uma crise de crédito cujo socorro aos endividados virá de mais endividamento, desta vez, do governo federal --fechando todo o ciclo de endividamento.

Vai levar um bom tempo para ouvirmos esse gato miar de novo.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

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