Diminuir a fonteAumentar a fonte 18/09/2011
Lições de outros animais
por Adair Philippsen*

Pena que, dos demais seres do reino animal, só imitemos o sorriso da hiena, as lágrimas do crocodilo, os amigos da onça, a ferocidade do leão (do IR). Pena que só concebemos bodes expiatórios, vacas de presépio, ovelhas negras, abutres, parasitas, chatos, sanguessugas etc. Lamentável, pois as lições dos bichos são bem diversas.

Mantêm suas moradas, andam, voam e nadam libertos na natureza, sem a ficção do Estado constituído. Seus líderes não comandam por medidas provisórias. A convivência, até com os vegetais, não é regrada por textos legislativos. E nem eventuais litígios são dirimidos por tribunais. Movem-se em paz, sem moeda, e sem Executivo, Legislativo e Judiciário e o restante do aparato estatal de segurança (as gazelas perseguidas pelos guepardos que o digam), transporte (a colisão de borboletas no ar ou o excesso de carga das formigas passam ao largo de regulamentos), saúde (não dispõem de rede hospitalar e sequer têm acesso a drogas químicas), previdência (o abate do velho boi de canga é o exemplo clássico da falta de aposentadoria por tempo de serviço), turismo (a circulação de andorinhas de outras freguesias acontece sem vistos de entrada, passaportes, alfândegas). E funciona. E como funciona.

Os cães permanecem de guarda 24 horas sem lhes ocorrer exigir a redução da jornada de trabalho. As vaquinhas nas estrebarias jamais exigiram adicional de insalubridade (em contrapartida, já são acusadas – por nós é óbvio – de contribuir com seus gases para o aumento do efeito estufa). Os pássaros canoros não exigem cachês por seus concertos. As cigarras não entram em greve: recolhem-se. O tico-tico cria os filhos do chupim sem conceber a idéia de despejar os intrusos do ninho. O panda, sem cobrar direitos, não se opõe à livre circulação de sua imagem. O macho da viúva-negra, mesmo ciente de que servirá de pasto à aranha depois do amor, não procura analista e nem propõe separação à companheira. As gorilas não se submetem a cirurgia estética ou enxertos de silicone. As aves de rapina não se escondem por temor de ordem de prisão e contra elas não se tem notícia de instauração de CPI. Os herdeiros das cabras sacrificadas não visam à indenização sequer por dano moral. A zebra, desde sempre, contentou-se com o figurino listrado em preto e branco sem pensar em substituir a roupa, conquanto pareça que vai sair definitivamente de moda devido à ameaça de seu desaparecimento (por obra nossa, lógico).

Até em cativeiro, o comportamento dos bichos em nada lembra os humanos: está por acontecer o primeiro motim de ratos de laboratório ou de canários-belgas em gaiolas ou de hipopótamos em zoológicos ou ainda de peixes em aquário.

São ene as lições. O galo lidera o terreiro mesmo sem campanha, eleição, caixa 2, e nem por isso se faz totalitário. O joão-de-barro constrói a casa com a idéia fixa no encanto da amada e na sorte da prole e, se enganado, não impõe cárcere privado à la Lindembergs (des)humanos. E, ante a dor da perda de filhote por queda do ninho, o universo todo sabe que o infortúnio é obra do acaso sem a menor semelhança com o ímpeto bestial do pai que arremessa a filha pela janela do apartamento.

Talvez os exemplos comovam: fiquemos com o sabiá. É claro que nos deve sensibilizar o calvário dos animais sob risco de extinção (alarmantes 38% das espécies do planeta) e dos que são vítimas de maus-tratos (vide cavalos esquálidos atrelados a carroças, vira-latas arrastados pela cidade, pingüins encharcados de óleo lançado no mar, ursos-polares em agonia pelo degelo etc.). Mas nos fixemos nos solfejos do sabiá. É desnecessário compreender o canto: como lembra Rubem Alves, basta amá-lo. Pois, extasiados com sua melodia, quiçá notemos nela a mensagem de que não somos melhores que os outros animais só porque não aprendemos suas melhores lições. As lições dos selvagens...

*JUIZ DE DIREITO - Zero Hora, 03 de dezembro de 2008
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